Referências

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Dia 08: Deuses e Crenças

 

(Link da imagem)

 

Ávillys mac Mórrigan

 Certamente podemos nos dizer naturalistas de crenças. Acreditamos em um mundo integrado e conecado, em completa simbiose. Além disso, somos animistas (ainda que não tão vividamente como os celtas do passado): tudo é vivo, tudo pulsa, vibra. Somos, em maioria politeístas. Acreditamos em um Outro Mundo que é parte dessa mesma realidade, apenas não nos é alcançável fisicamente. Acreditamos em magia e em um mundo encantado, também habitado pelos feéricos. Acreditamos em vida além da morte e que nossa jornada no além-vida é literalmente uma jornada partilhada nas mesas e salões dos deuses ou nas várias ilhas encantadas do Outro Mundo, onde poderemos viver, festejar, comer, dançar e tudo mais. O plano espiritual não é muito diferente desse, só nos é uma realidade ainda inalcançada (até a morte). Muitos de nós acredita na reencarnação ou na transmigração da alma, mas não temos uma ênfase evolutiva, pois não acreditamos na separação binária ou dual de bom e mal, desevoluído e evoluído, tudo está junto, conectado, face da mesma realidade. Nossa função espiritual é alinhar nossos Caldeirões da Poesia e enche-los.

Já os deuses... Os celtas (e a maioria de nós é) eram politeístas. Cada tribo, reino, nação tinha seu próprio panteão e não havia uma visão de um Deus ou Deusa únicos que fundissem ou unissem todos os demais Deuses como arquétipos de sua unicidade. Igualmente, não era comum que uma tribo cultuasse aos Deuses de outra tribo. Respeitava-se o panteão local conforme a tradição e os ensinamentos (passados de boa a orelha). Haviam apenas cinco Deuses celtas que historicamente estão presente em todas as tribos e nações, chamados de Deuses pan-céticos: Danann, Dagda, Morrigan, Lugh e Brigit.

            
Contudo, nos dias de hoje, com o recomeço do paganismo e a globalização, é comum que alguns grupo optem por aderir o culto a Deuses de diferentes panteões celtas, prática realizada a partir de estudo e de forma honrosa e respeitosa. Mas também há grupos que optam por seguir de maneira histórica e assim cultuar apenas os Deuses da tribo ou nação que segue. Particularmente acredito que ambas as práticas são coerentes, desde que feitas com sinceridade, estudo, respeito e honra.
            
Os Deuses eram cultuados como mestres divinos e seres de sabedoria e poder que excedem incontáveis vezes às humanas. Viviam em terras do Outro Mundo, mas podiam transitar, partilhar e até viver em nossas terras. Suas formas de atuação nesse mundo eram através das forças da natureza e de seus animais totêmicos. Acredita-se que os Deuses podem se transformar nas forças da natureza ou em animais para atuar e viver nesse mundo.
            
A visão celta dos Deuses é descrita de maneira profundamente humanizada. Nossos sábios mestres possuem humores, desejos, se ferem, festejam, sentem dor, ira e prazer. E muito disso ainda nos é passado nos mitos e lendas que chegaram até nós, nos quais os Deuses são descritos com características perfeitamente humanas, vivendo em seu convívio nessa ou em outras terras e, muitas vezes, são aclamados como heróis. O exemplo disso está nas lendas dos Tuatha dé Danann e na conquista de Ériu (Irlanda), onde a tribo da Deusa Danann é conduzida, comandada e governada não apenas por heróis nobres, mas pelos próprios Deuses que fizeram ali sua morada. Isso não é tão surreal se lembrarmos que o véu difere terras e mundos que pertencem fisicamente ao nosso próprio Mundo (Universo), assim o trânsito, inclusive físico, não é algo absurdo. Contudo, com o véu se solidificando, cada vez menos os Deuses vem habitar entre os humanos e cada vez mais nos distanciamos de suas graças, honras e heroísmos.
            
O contato com os Deuses é feito de maneira honrosa e amigável. É possível conversar e indagar as coisas aos Deuses, desde que de forma respeitável, você terá sua resposta e auxílio, basta se atentar aos sinais a sua volta. Outra forma de contatar os Deuses é através de oráculos e vidências. Os Deuses falam e nosso íntimo, o essencial é aprender a ouvir sua voz. A relação honrosa e o culto aos Deuses é uma forma de agradecimento e de estreitamento de laços. Honrar e cultuar os Deuses é uma forma bela e saudável de dizer o nosso “muito grato” a eles. Devemos lembrar que eles controlam nosso destino e o destino de toda existência terrena. São os seres superiores de nosso Mundo, criaturas da Grande Canção, mas também aqueles que zelam e escutam seu tocar.
            
Os Deuses não são autocráticos, mas zeladores do Mundo, mantenedores do equilíbrio universal que permite a existência e a vida. Awen arde intensamente nos Deuses, e através deles nos aproximamos ainda mais de Awen e do Oran Mor. E estar a seu serviço é aprender e adquirir honra e sabedoria, servindo ao equilíbrio.
            
Entre os povos celtas, contam-se mais de cento e cinquenta Deuses. Por essa razão, não dedicarei uma fala sobre cada um deles no momento. O que nos importa dizer é que os Deuses celtas são pré-cristãos, existem e eram cultuado muito antes da datação de Jesus ou da cristianização da Europa. Muitos desses Deuses foram canonizados pela Igreja Católica – como o caso de Brigit que virou Santa Brígida (padroeira da Irlanda –; outros, ao contrário, foram demonizados – como o caso de Cernunnos, cuja forma hibrida de natureza, animal e humana está na base da forma do diabo medieval. Apesar desse triste fato, os Deuses celtas nada têm a ver com os demônios cristãos. Não há culto ao diabo ou a qualquer secto a ele relativo entre as práticas e cultos celtas. Assim como a maioria dos grupos celtas de hoje não cultuam os elementos da cristandade ou o Cristo. Um aprendizado que um culto politeístico semeia é o do respeito a diversidade, não há apenas um caminho possível, há múltiplas verdades e todas são igualmente verdadeira. Dessa forma, o respeito e a honra estão na base do culto, assim como a busca pelo equilíbrio mais do que a noção clássica de “bem contra o mal”. Concomitante, respeitamos, e muitas vezes nos relacionamos intimamente com, a visão wiccana da Deusa (ou Deusa e Deus), mas essa também não é a visão celta sobre as divindades, por mais bases célticas que a Wicca tenha.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Dia 07: Prática Diária

Altar Geral - Ávillys mac Mórrigan (2017)

 

 Ávillys mac Mórrigan

Esse tema é algo que precisamos realmente nos ater... Druidismo, ou qualquer outra espiritualidade, sem prática são apenas palavras vazias, e damos muito valor às palavras! Praticar é preciso, e não é preciso muito para praticar. 

Recupero aqui a frase inicial do livro A Semente da Bétula, de Marcelo Paschoalin: "Três coisas essenciais a um druida: ESTUDO para colocar ideias na mente, PRÁTICA para transformar essas ideias em ação, e DEVOÇÃO para que essas ações cheguem aos deuses.". E aqui temos três práticas necessárias no Druidismo: estudo, prática espiritual / social, prática devocional. E sim, estudar é uma forma de praticar.

Uma das referências do termos "Druid", seria a raiz "drui" (carvalho - draoí, em irlandês), e assim o druida seria o "homem carvalho" ou o "homem com a sabedoria do carvalho". O carvalho é uma árvore forte, resiliente e sábia, muitas vezes reverenciada como "o rei da floresta", isso porque, para além de sua altivez, ele é longevo e lento. Tem um ciclo de crescimento lento, mostrando que a paciência é o caminho da sabedoria, ou seja, muito (muito) estudo mesmo. Mas chega uma hora que saber não basta! Precisamos praticar o que sabemos, o que aprendemos, o que acreditamos. E essa prática não é apenas ritualística - na verdade é muito pouco ritualística. Essa prática é social, pessoal, íntima, coletiva. Se não praticarmos o Druidismo no nosso dia a dia também como uma filosofia de vida, como podemos nos dizer druidistas e pessoas que honram os deuses? Como honrar algo que não praticamos? Como pregar algo que não está em nossas ações?

Prática diária significa viver diariamente o druidismo, em seus preceitos, gestos, crenças, em um constante aprendizado. Sim, um druidismo nunca para de estudar, de aprender e de reformular (as vezes drasticamente) a si e suas práticas. E esse maior estudo vem da natureza, do mundo, da nossa conexão com o sagrado natural que nos antecede e nos sucederá. Só quando nossas ideias são verdadeiramente praticadas em nosso dia a dia, podemos pensar em uma prática devocional.

E não é preciso muito: agir honrosamente, de acordo com as 9 virtudes (Verdade, Honra, Justiça, Lealdade, Coragem, Generosidade, Hospitalidade, Força e Perseverança), agir respeitando o sagrado onde e como quer que ele se manifeste são práticas diárias muito fortes. Mas com o tempo, nossa prática também passa a ser reverenciar a vida, saudar as oportunides, compreender os desafios, meditar nas dificuldades. E junto com tudo isso, agradecer! E em gratidão ofertamos nossas orações, cantos, alimentos... Em desejo real nos voltamos a nós mesmos ou a nossos altares para celebrar, agradecer, encantar.

Enquanto sacerdotes, devemos entender que sacerdócio não é poder, é serviço. E que atuar para uma comunidade (seja ela bem definida ou não) é estar sempre vinculado, conectado. Não se distingue o sacerdote da pessoa, com o tempo, eles se tornam um só. Contudo, nem todos praticam visando o sacerdócio, há muitos que desejam apenas vivenciar, se devotar ao sagrado. E está tudo bem, não são mais ou menos, apenas vivenciam o chamado de forma diferentes. Esses também não se separam de seu eu religioso (somos um só em todas as nossas facetas), mas vivenciará a fé de forma mais íntima.

Minha prática diária é muito pouco ritualística... Tem mais a ver em viver as verdades druídicas em meu coração (e nisso dizem que sou muito devoto, quando me conhecem mais profundamente, se espantam com o quão religioso sou). Eventualmente, minhas práticas são devotadas ao altar ou em rituais, fazendo oferendas, agradecendo, saudando, encantando. Mas a principal delas é manter minha conexão sempre aberta e estável com o sagrado que reverencio, entendendo seus preceitos e sinais... Ainda que de forma singela, viver uma religiosidade é praticá-la diariamente.


 --

Acompanhe os meus 30 Dias Druídicos e conheça o projeto / desafio pela página central, clicando aqui

domingo, 16 de agosto de 2020

Dia 06: Espaços Sagrados

Círculo de ávores

 Ávillys mac Mórrigan

Em primeira resposta eu diria que nossos templos é a própria natureza! Se como disse, no dia 04, a natureza é sagrada faz mais do que sentido que nossos espaços sagrados sejam os campos, os bosques, as florestas, as pradarias, as cachoeiras, os rios, os mares, as praias, os pântanos, os montes e até os desertos. Mas se pensarmos que a Terra é sagrada, então também temos que concordar que onde quer que estejamos é um local sagrado.

Por mais urbanos que sejamos e por mais distantes da natureza que nossas cidades possam parecer, elas fazem parte desse planeta e, portanto, parte da natureza. Então, a meu ver, não existe espaço que não seja ou possa ser sagrado, existe locais em que o homem distorceu em ganância e profanação, criando uma vida ilusoriamente apartada da natureza. Mas para pessoas perceptivas, a natureza está sempre ao redor: no ar que respiramos, na água que tomamos, no céu que está sobre nós, no solo que pisamos, nos pássaros e animais que adentram nossos muros. E toda corrupção pode ser limpa se assim quisermos.

Entenda, não defendo que o urbano é corrompido ou mal. Meu ponto não é esse. Os celtas viviam em vilas, fortalezas e até cidades, e haviam druidas locais desses centros tribais, certamente haviam salões e templos de reunião. Mas a conexão e simbiose com a natureza não era perdida, o sagrado estava dentro, porque também estava fora e quem habitava essas fortalezas sabia que tudo aquilo também era natureza. Inclusive, a dito de curiosidade, os druidas das florestas eram considerados mais poderosos e sábios que os druidas "urbanos". Meu ponto é a necessidade de se reconectar, de romper os muros e entender que também somos natureza.

 Hoje, muitos de nós prestam seus cultos e práticas em casa, e como não dizer que a casa, que o lar não é sagrado? Espaços sagrados são aqueles em que fazemos morada, em que nossos corações repousam (naturais ou urbanos), e se entendermos assim, espaços sagrados também são os locais onde nossos deuses, feéricos e ancestrais fazem sua morada ou encontram seu repouso.

Por essa razão, alguns locais são descritos pelos celtas como pontos de grande poder ou de grande sacralidade, pois seriam a morada (ponto de reunião ou de descanso) dos deuses, dos feéricos e dos ancestrais. Seriam, em muitos pontos, portais entre esse e o Outro Mundo. Mas não que apenas esses locais sejam sagrados. No caso céltico, temos monumentos antigos (construídos pelos predecessores desses povos), as florestas, os montes, os círculos de pedra e os locais naturalmente circulares (clareiras, círculos de cogumelos ou flores). São pontos que pertenciam ou serviam de morada aos povos sagrados (deuses, sídhe e ancestrais), e assim locais de grande sacralidade e poder.

Fairy Ring (Anel de fadas) - Local de encontro ou morada dos feéricos


Navan Fort, Amargh - Irlanda
 

Beltany Stone Circle - Irlanda
 

Brúg na Boine (Newgrange) - Irlanda
 

Stonehenge - Inglaterra
 

E não nos enganemos. Se ouvirmos lendas antigas e nativas, descobriremos locais assim descritos em nossas redondezas. Esses são espaços de peculiar reverência. Mas não que só eles importam. Ao entrar em qualquer espaço, principalmente espaço natural, é comum que nós do Druidismo peçamos "licença", e abençoamos o espaço. É uma cortesia que pressupõe que aquele local é morada de alguém (físico ou espiritual) e assim estaremos ali em partilha e em amizade, e não usurpando ou profanando espaços sagrados para outros povos, seres ou mesmo animais. Essa etiqueta é algo que também temos (ou deveríamos ter) em nossa vida humana, em nossas casas e visitas. É de bom tom pedir licença para estar num espaço que não é seu, e de melhor cortesia ainda abençoar, bendizer o espaço que te acolhe, seguindo as regras e convivências daquele local.

Uma coisa que sempre vou dizer: somos nós que consagramos ou profanamos os espaços, algumas vezes os espaços não nos pertence para profanar, o que torna nossos atos um crime espiritual. Mas se partilharmos da política da boa-vizinhança, lembrando que a natureza é sagrada e que tudo é natureza, certamente estaremos sempre consagrando e honrando as várias moradas do sagrado nesse mundo.

Para além disso, lembremos que nem só grandes construções podem ser moradas. Nossos altares, oratórios e templos são moradas do divino, ainda que pequenos e singelos. 

 

Nemed na bhFianna (clareira ritualística do Leanaí an Ghealach Clann) - Juiz de Fora / MG

 

 --

  • Acompanhe os meus 30 Dias Druídicos e conheça o projeto / desafio pela página central, clicando aqui

 

 

sábado, 15 de agosto de 2020

Dia 05: Elementos

 

Imagem por João Eduardo Schleich Uberti
O homem perfeitamente conectado como parte e microcosmos da própria Árvore do Mundo. O homem perfeitamente conectado à Oran Mór (a Grande Canção)

 

 Ávillys mac Mórrigan

Elementos... Elementos são as partes mais básicas de algo, e para falar das partes elementares do Druidismo precisarei dividir esse texto em duas partes: os elementos naturais e os nove dúile.

 Entre os celtas e no Druidismo Moderno, são três os elementos naturais: Ar, Terra e Água, chamados modernamente (a partir do galês) de Nwyfre, Calas, Gwyar (respectivamente). O Fogo não é visto como elemento, ele é a representação da Awen (Imbas). A Awen é a chama sagrada, a inspiração divina, a magia, o espírito universal que a tudo ilumina e transforma. E há uma razão para isso: os elementos estão primeiramente articulados com os Três Reinos. Nwyfre (Ar / sopro) com o Céu, Calas (Terra) com a Terra e Gwyar (Água) com o Mar. Em sequência, pois pássaros podem "habitar" os céus, animais habitam a terra e os peixes habitam o mar, mas nenhum ser vivo habita o fogo. Outra referência é que o fogo é o poder transformação dos três elementos: o fogo liquefaz a terra, evapora a água e consome o ar, ele guia e transforma os demais elementos.

Nesse sentido, Calas (Terra) representa a fixidez, a solidez, a manifestação, a realização o físico. Nwyfre (Ar / sopro) representa a inspiração, o pensamento, a espiritualidade, o sonho, a volatilidade, e o momento. E Gwyar (Água / mar) representa o meio termo, as emoções, a atuação prática, a condução e sucessão, o tempo. Igualmente estão relacionados também às três famílias sagradas: os Deuses (Nwyfre), os Sídhe (Calas), e os Ancestrais (Gwyar).

Já os nove Dúile (segundo a tradição celta-irlandesa) são elementos corporais básicos em correspondência entre o homem e a Terra, elementos de correspondência que regem uma base simbólica de explicação mágico-filosófica da relação corpórea e das funcionalidades básicas do corpo. Se pensarmos em uma medicina celta-irlandesa, possivelmente começaríamos com os dúile como referência.

Não vou entrar em muitos detalhes a respeito deles, pois são reflexões muito amplas para um simples texto introdutório e explicativo. Mas instigarei a curiosidade de vocês através dos nomes e referências a seguir.

1°- Cnaimh (Os ossos): estrutura que sustenta o corpo. Para os celtas os ossos continham a magia de uma pessoa. Correspondem à Cloch (pedra).

2°- Colaind (A carne): estrutura que nos dá forma e possibilita a nossa locomoção. Corresponde à Talamh (Terra).

3°- Gruaigh (A pele / cabelo): são como "antenas", sensores corporais sensíveis ao toque, calor, dor, frio e prazer. Indicadores de saúde e bem-estar. Correspondem às Uaine (árvores e plantas verdes).

4°- Fuil (O sangue): fluido que dá vida ao corpo, é o rio que flui dentro de nós, que nos aquece e reflete nosso estado emocional. Corresponde ao Muir (Mar).

5°- Anal (A respiração / sopro): é a renovação da vida, elemento que promove a limpeza dos sentimentos e o alívio das tensões. Os celtas viam a respiração como o ar que circula no céu. Corresponde ao Gaeth (vento).

6°- Imradud (A mente): é a responsável pela sabedoria do homem, são como as ondas alfas da mente que controlam a natureza ondulatória do pensamento. Corresponde à Ghealach (Lua), que controla os ciclos das marés.

7°- Drech (A face / rosto): responsável por expressar a personalidade e como o mundo as percebe. A coragem, a reputação, a palavra e a honra eram demonstradas visualmente pelos bardos, através da poesia. Corresponde ao Grian (Sol).

8°- Menma (O cérebro): funciona como um computador, responsável por armazenar pensamentos e memórias, o organizador da nossa capacidade mental. Corresponde à Nel (nuvem).

9°- Ceann (A cabeça): era venerada pelos celtas, que acreditavam ser o lugar onde residia toda a essência da personalidade e o poder pessoal de cada um, geralmente, eram trazidas como troféus de guerra ou conservadas em um local nobre. Corresponde ao Neamh (Céu).

 O que se observa ao estudar os Dúile é que eles parecem conectar plenamente as noções cosmológicas em uma compreensão do homem e do mundo enquanto seres completos e correspondentes: Reinos, Elementos, Povos, Caldeirões e Dúile. Percebam:

Terra Média ou Mundo Intermediário
A Árvore do Mundo encontra-se no centro do Mundo, interligando os Três Reinos. A sua frente queima Awen.
Reino
Elemento
Povo
Caldeirão da Poesia
Dúile
Céu
Nwyfre
(sopro / vento / Ar)
Deuses
Coíre Sois
*Drech – Grian (Rosto – Sol)
*Menma – Nel (Cérebro – Nuvem)
*Cean – Neamh (Cabeça – Céu)
Mar
Gwyar
(mar / água)
Ancestrais
Coíre Érmai
*Fuil – Muir (Sangue – Mar)
*Anal – Gaeth (Sopro – Vento)
*Imradud – Ghealach (Mente – Lua)
Terra
Calas
(terra / solo)
Sídhe (fadas)
Coíre Goiriath
*Cnaimh – Cloch (Ossos – Pedra)
*Colaind – Talamh (Carne – Terra)
*Gruaigh – Uaine (Cabelo – Plantas)

Não se preocupe em entender toda a complexidade de informações que essa tabela tem em si em um primeiro momento. Sei que é muita informação. O que desejo que você perceba através dos Dúile e de sua correlação com todos os elementos místicos e cosmológicos do Druidismo é que o homem é visto como um microcosmos do próprio cosmos a que pertence. O homem como a própria Árvore do Mundo, tendo em si todos os elementos: a conexão com os Reinos, a atuação e manutenção dos Elementos, a presença e atuação dos Povos, a constituição dos Caldeirões, e as virtudes dos Dúile. Entender essa relação mística e essa profunda conexão é fundamental para entender a sacralidade do homem, do planeta e do Mundo e é imprescindível para a vivência da espiritualidade celta.

Alcançar essa sabedoria é a base fundamental da essência do homem místico celta, e o ponto de partida da espiritualidade celta. Essa conexão possibilitaria, enfim, ao místico alcançar Awen e por consequência, ouvir a Oran Mór (a Grande Canção).

 “Grove de Aspen
Muitos braços
De uma única raiz
No fundo do útero
Mistério da Mãe
Eles são muitos ou são um?
Responda-me isto:
São muitos ou são um?
Sim, sussurra a Aspen...
Somos muitos e somos um!”
(Poema do Druida Michael R. Gorman apud Rowena A. Seneween)[1]
 
 
 --
  • Acompanhe os meus 30 Dias Druídicos e conheça o projeto / desafio pela página central, clicando aqui.  

 

 ---

[1] Retirado de Seneween, Rowena A. 3º dia: Terra e Natureza In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=54>.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Dia 04: Terra e Natureza

 

(Link da foto)

 Ávillys mac Mórrigan

A natureza era sagrada pelos povos celtas. Isso não temos dúvidas! Os deuses falam através da natureza e dominam suas forças.  Os sídhe (feéricos) habitam lugares naturais e zelam pela natureza. O homem, sem dúvidas, era concebido em integração com o meio-ambiente. Claro que isso é sem romantismos. Os celtas derrubavam árvores, construíam cidades, mudavam a paisagem natural. Mas acredito que isso era feito com consciência ambiental. Os lugares sagrados eram os lugares naturais ou os monumentos de povos anteriores que se acreditam ter sido feito pelos próprios deuses, onde muitos fazem também sua morada.

A consciência de que a natureza é sagrada muda a relação do homem com ela. Você não profana e não destrói de maneira inescrupulosa o local onde seu sagrado mora. Pelos mitos e relatos históricos e arquiológicos, acredito que o homem celta era visto como parte da natureza, nem mais nem menos. E isso muda a relação dele com o meio-ambiente, com os animais. Acredito que essa relação se aproxime muito do q vemos com os indígenas ainda hoje.

A visão animista presente nas sociedades célticas também ajudam nesse sagrado, pois tudo é vivo. A pedra, a montanha, o céu, tudo tem vida! Só uma vida que se manifesta de forma diferente, que interage de forma diferente da nossa. E tendemos a respeitar mais as coisas que consideramos vivas do que aquelas que objetificamos. 

Não podemos, entretanto, dizer categoricamente que os celtas tinham a compreensão do mundo, do planeta Terra... Sabemos que o Outro Mundo é, muitas vezes, referido como parte desse mundo, uma continuação a oeste... Mas daí a pressupor uma noção planetária ou não, é difícil dizer. Não nos chegou nem mesmo um mito de criação legitimamente celta que não se refira a criação de terras, monumentos ou espaços específicos. Contudo, há outros indícios a procurar...

Não dá para olharmos os povos do passado e pressupor que tivessem o mesmo pensamento filosófico ou compreensão de mundo que temos hoje. Certamente eles desconheciam a noção planetária como temos hoje em toda a teoria cósmica da ciência moderna. Mas não acredito que (especialmente os gaélicos a quem me detenho mais) não tinham uma compreensão de mundo e talvez uma visão da Terra como sendo uma coisa só, ou um único mundo! E vamos em direção a isso.

Cailleach, a deusa gaélica do inverno tem outros atributos e epítetos. Ela também está relacionada a soberania, a terra, a magia, a transformação, as estações e a vida e morte. Na Irlanda, muitos acreditam que a imagem de Sheela na Gig seja uma referência ou um epíteto a ela, que assim seria chamada também de A Parideira do Mundo (Sheela na Gig). Outro epíteto escocês dado a ela é como Mag Moullach (Momu), que poderia ser traduzido como Grande Mãe da Terra ou Grande Mãe Terra. Na Irlanda ela já é chamada também de Seanmáthair Mór (ou apenas Máthair Mór), a Grande Avó. É dito que, na Escócia, que sua capa seria a própria terra escocesa e que são os cuidados com sua capa que guiam ou mudam as estações.

Por esse indício, não seria errado conjecturar que alguns gaélicos podiam ver Cailleach como uma Mãe Terra. Outras deidades também podem ser referenciadas dessa forma, como Anu (a mãe de leite dos deuses Irlandeses, cujos seios seriam dois montes gêmeos na Irlanda chamados de "Os Seios de Anu); ou, mais modernamente, a própria Danu na visão e crença popular de algumas pessoas da Espiritualidade Céltica.

Apesar de ser conjecturas com possibilidades bem concretas de interpretações, podemos nos concentrar no fato de que toda religiosidade e espiritualidade precisa estar atualizada para seu tempo para ser efetivamente vivenciada. Hoje em dia, ecologicamente falando, é quase impossível pensar na Terra como um planeta inanimado. A Teoria de Gaia (teoria científica que aponta para o planeta como um organismo vivo) está aí para nos mostrar isso. Mesmo que pressupomos que os celtas não tivesse uma Deusa-Terra, uma "Gaia", o Druidismo moderno certamente absorve esse pensamento de que a Terra é sim um organismo vivo do qual todos fazemos parte. E podemos nos basear nisso ao entender os 9 Dúile, ao compreender que tudo tem vida, tudo é animado e ao olhar para os estudos científicos de nosso planeta.

Isso não nos coloca para endeuza-lo de maneira abosluta (até porque, na espiritualidade céltica acho que nada seria em si absoluto, talvez a Oran Mór), mas nos faz compreender que nossa vida é integrada a desse grande organismo, se não cuidamos dele, estaremos destruindo a nós no futuro. Se a natureza é sagrada, então nosso planeta é sagrado, o Universo é sagrado.

Portanto, viver o Druidismo hoje é viver em consciência de que estamos em um mundo sagrado em sua natureza, vivo em todas as coisas, único em sua existência. Ou seja, é viver espiritualmente uma vida o mais ecologicamente consciente possível, na tentativa de termos uma vida simbiótica e sagrada com o planeta e não corrompida ou depreciativa.

A Terra e a Natureza são tudo para o Druidismo, efetivamente é nosso primeiro destino de culto, em nossos festivais anuais de agradecimento e culto aos ciclos e estações terrenas, em celebração a prosperidade e fertilidade da Terra. A natureza é linda, divina para aqueles que a olham com atenção, e nós reconhecemos, celebramos isso! É a Terra que nos garante soberania!

Gostaria de finalizar esse texto com uma citação do Philip Carr-Gomm (OBOD) em seu livro "What do druids believe?", em tradução livre:

"É fácil interpretar Paz e Amor como qualidades "suaves" ou passivas, mas o Druidismo oferece uma maneira de se reconectar a esses valores que os tornam potentes e proativos, e os traduz em ações específicas em nossas vidas cotidianas. A Rede da Vida e a Ilusão da Separação tecida em grande parte do pensamento druida e toda a sua prática é a crença de que estamos todos conectados em um universo que é essencialmente benigno por não existirmos como seres isolados que precisam lutar para sobreviver mundo cruel. Em vez disso, somos vistos como parte de uma grande teia ou tecido da vida que inclui todos os seres vivos e toda a Criação. Esta é essencialmente uma visão panteísta da vida, que vê toda a Natureza como sagrada e interconectada. Essa visão se tornou popular, recentemente, graças ao trabalho de James Lovelock, cuja hipótese de Gaia sugere que o planeta é um ser vivo, funcionando como um organismo único que mantém as condições necessárias para sua sobrevivência. Os vários processos que ocorrem na Terra - físico, químico, geológico e biológico - são vistos como interconectados, afetando um ao outro em um processo contínuo de troca e relacionamento. Durante a década de 1980, a hipótese de Gaia, juntamente com teorias propostas por físicos quânticos como Fritjof Capra, começaram a adicionar perspectivas científicas a uma teoria que muitos acreditavam ter sido articulada um século antes pelo líder nativo americano Chief Seattle. As palavras comoventes atribuídas a ele inspiraram pessoas em todo o mundo e as despertaram para a idéia de interconectividade." 

 

--

  •  Acompanhe os meus 30 Dias Druídicos e conheça o projeto / desafio pela página central, clicando aqui

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Dia 03: Três Reinos

 

(Link da imagem)

 Ávillys mac Mórrigan

Novamente, optei por reutilizar um texto antigo, de 2016, feito por mim. Isso porque o texto explica em perfeição o que penso e trabalho quando falo dos Três Reinos... Mas farei algumas correções pontuais.

 --

Neamh nglas, muir más, talamh cé.”
“Céu azul, belo Mar, Terra presente.”
(Invocação de Blathmac mac Cú Brettan)

Para os celtas, especialmente os irlandeses, o mundo seria composto por Três Reinos: o Céu sobre nossas cabeças, a Terra sob nossos pés, e o Mar que nos rodeia. E assim, tudo o que existe, pertence a um dos reinos.[1] Não nos é difícil entender porque dessa relação muito presente sobretudo nos celtas irlandeses: a Irlanda é uma ilha com um céu sobre ela, uma terra firme para pisar e um gigantesco mar circundante. Mas se formos parar para pensar, tudo o que existe não é assim? Não seria o espaço sideral uma prorrogação de nosso circundante mar nos conduzindo a outras terras (deferentes da nossa mas igual em existência)?

Desse modo, o Céu é o Reino de Nwyfre, do Ar, Reino dos Deuses e dos animais que voam e planam. É do Céu que vem a inspiração e o contato com os Deuses. Ele é o nosso Reino Acima.

A Terra é o Reino de Calas, da Terra, Reino dos Espíritos da Natureza (as fadas que vivem entre nós), dos homens e dos animais que andam e rastejam. É da Terra que vem a sustentação, e o caminho para o desenvolvimento. Ele é nosso Reino do Meio.

O Mar é o Reino de Gwyar, do Mar (das águas), Reino dos Ancestrais e das fadas (as que não vivem entre nós), dos animais que nadam e mergulham. É do Mar que vem as provações, a condução e os sentimentos. Ele é nosso Reino Abaixo e ao Redor.
            
No centro do Mundo (axis mundi) encontra-se então a Árvore do Mundo, aquela que conecta e mantém os Três Reinos. Para os celtas essa árvore é um freixo com galhos altivos que alcançam os céus, tronco firme que sustenta a terra e raízes profundas que alcançam o mar (as águas). Na sua frente queima a Awen (ou Imbas), o fogo sagrado.

Que o céu caia e me esmague, que o mar se erga e me afogue, que a terra se abra e me engula se eu quebrar esse juramento.
(juramento irlandês)

E eis um juramento muito respeitado e de grande poder entre os celtas irlandeses. Seu maior temor era exatamente esse cenário apocalíptico em que o desequilíbrio (talvez o fim da Árvore do Mundo) levasse ao caos entre os reinos, fazendo o Céu cair, o Mar invadir a Terra e a Terra se abrir.


“Não sei qual o meu destino.
Viajo para muito longe das ondas.
Procuro minha alma, onde ela está?
Eu olho a estrela para me guiar de volta.

Há uma ilha no oeste,
Terra sob o Céu e sobre o Mar,
Viajo para muito longe em minha busca.
Procuro um guia para me conduzir.

Um ramo de prata em minha mão
Com flor de cristal e fruto dourado,
A mãe árvore cresce na praia;
É lá que eu devo encontrar minha raiz.

Há uma ilha no mar,
Onde as águas fluem e o alimento dá a vida,
Onde não há inimigo, onde o amor é livre.
Procuro um lugar onde não aja contenda.

Eu olho a estrela para me guiar para casa,
Encontro o repouso da minha alma e meu espírito,
Viajei muito além das ondas,
Pois não há fim em minha busca.”

(poema de Catlín Mathews para a travessia da alma apud Rowena A. Seneween)[2]

 --

  • Acompanhe os meus 30 Dias Druídicos e conheça o projeto / desafio pela página central, clicando aqui

 

 

---

[1] Particularmente eu articulo os reinos igualmente como Acima, ao Meio e Abaixo, seguindo a seguinte ordem: Céu acima, Terra ao meio, Mar abaixo. Minha justificativa é simples: uma árvore possuí seus galhos altivos no céu, seu tronco está na terra, e suas raízes profundas buscam água. Mas conheço e reconheço outras vertentes que, por exemplo, articulam Céu acima, Mar ao meio, Terra abaixo, usando duas justificativas: a primeira relacionada ao fato de que pisamos sobre a terra, por isso ela estaria abaixo de nós; o mar nos circunda, o que dá uma ideia de meio. A segunda justificativa que corrobora com essa visão são as articulações dos caldeirões: Coíre Sois, na cabeça, se articula com o Céu; Coíre Ermaí, no peito, se articula com o Mar; e Coíre Goíriath, no ventre, se articula com a Terra. Vejo profunda coerência nessa vertente. Mas eu particularmente, tendo a entender que a posição dos Reinos não interfira em sua atuação. O Mar, mesmo abaixo nos circunda. Referências mitológicas como a Terra Sob as Ondas (lar dos ancestrais) também me fazem pensar no Mar como abaixo. Por fim, se recriarmos a ideia cosmológicas dos Três Mundos estando nós habitando o intermediário, seria fácil presumir que também habitemos o Reino Intermediário. Mas essa é uma reflexão extensa e que creio ser insolúvel. Faço aqui uso das palavras de Bellouesus para mim no VI EBDRC: “se dá certo para você, então está certo”. Estude e escolha sua perspectiva, se ela for coerente e funcionar, viva-a.
[2] Retirado de Seneween, Rowena A. 4º dia: Três Reinos In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=55>.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Dia 02: Cosmologia

 

(Link da Imagem)

Ávillys mac Mórrigan

 Eu confesso que já tinha escrito esse texto antes... Logo quando fiz os 30 dias druídicos pela primeira vez em 2015. Ele chegou a ser postado aqui no blog, mas dado o momento... estou repostando, até porque minha visão quanto ao assunto não mudou, se aprofundou, mas permanece fiel a esse ensaio.

Deixo aqui a atualização... Ainda hoje nenhum mito conseguiu ser mais simples, profundo e complexo do que o mito criacional da Oran Mór (a Grande Canção), que pode ser expresso em total verdade e clareza por essas duas frases: "existia o nada e o vazio e, um dia, a Música tocou!"

--

Se aprofundar na cosmologia celta é adentrar nas brumas do tempo, e espiralar por um passado longínquo praticamente inacessível.

Os celtas não deixaram registros escritos até muito recente em nossa história. Os poucos registros se remetem em sua maioria a um período em que a fé celta estava cristianizada ou em vias de sua cristianização. Compreender e ir mais fundo nos mistérios celtas requer uma habilidade especial: saber olhar o pouco que temos disponível como migalhas de pão de um caminho rumo a floresta, rumo ao sagrado. Um sagrado que precisa ser sentido para ser compreendido e que dificilmente pode ser explicado por palavras modernas.

Parte desses mistérios e conhecimentos perdidos nas brumas do tempo estão aqueles que se remetem ao mito de criação celta. É comum que as religiões tenham seus mitos cosmogônicos, as lendas e histórias que remetem ao princípio de tudo. Assim como seus mitos escatológicos, que nos levam até o fim dos tempos. Contudo, os celtas não. O que sabemos é que a grande crença celta vive no ciclo infinito. E talvez esse ciclo nos remeta a uma ideia de eternidade e perenidade.

Mas podemos achar algo que pode, e deve, ser tomado como mito criacional. Os druidistas mais contemporâneos descreveram uma Oran Mor (Grande Canção). A Oran Mor seria nada mais que a melodia criacional, a inspiração que tudo criou. Então tudo surgiu da música, tudo é música, e tudo se desenvolve pela música. A inspiração criacional diz exatamente o que o nome quer dizer: a respiração. A Oran Mor pode ser entendida como o som da respiração cósmica que criou a tudo, um organismo universal que começa sua respiração. Por isso, ela pode ser sentida no barulho das ondas do mar, que imitam o movimento e som de uma respiração. Mas ela também pode ser ouvida no toque do tambor, que imita o batimento cardíaco.

Isso tudo ainda é pouco. Escutar a Grande Canção é uma tarefa difícil praticamente impossível. Mas podemos harmonizarmos com ela, sentir seu fluxo e nos unirmos a ele, entrando num estágio de harmonia com tudo o que existe.

E assim, os celtas falam de Três Mundos: o mundo acima, mundo celestial; o mundo intermediário (a Terra Média); e o submundo. O mágico na compreensão celta é que não há nenhuma hierarquia entre os Três Mundos. Eles coexistem harmonicamente, e assim o que está acima não necessariamente é melhor do que os que estão abaixo. E eis que o centro também simboliza o fogo, a poesia e a criação, o centro é a Oran Mor.

Dessa forma, portanto, é da música que tudo vem, pela música que tudo flui. É a Grande Canção que move o mundo.

Nosso planeta faz parte dessa música, desse ser cósmico e sagrado. Faz parte e é a Terra Média ou o Mundo Intermediário. Dessa forma, ele é sagrado, assim como tudo que há nele. Há nos celtas um respeito primordial e inquestionável pela Natureza e pelo mundo em que vivemos. A Terra é nossa Mãe, mas também é parte de nós e nós dela. Essa simbiose harmônica deve ser mantida de maneira honrosa. Entender, sentir e honrar o sagrado em nosso mundo também é uma tarefa essencial na fé celta. Esse honrar não deve ser entendido como uma submissão e servidão, mas como respeito.

A Terra também possui Três Reinos: O Céu, a Terra e o Mar. Cada reino representa um elemento sagrado e é ponto de conexão com outros mundos.

O Céu, representa Nwyfre, o sopro divino, o ar e o próprio céu acima de nós. Assim, o céu, acima de nós, representa a luz, a inspiração sagrada e os Deuses.

O Mar está em nosso horizonte, representa Gwyar, as águas e o próprio mar ao nosso redor. Representa, portanto, as emoções, os seres feéricos e os ancestrais.

Já a Terra, está sob os nossos pés e, eu a considero, no meio entre os reinos – uma recriação dos Três Mundos Cósmicos. A Terra representa o Calas, a terra que nos sustenta. Representa as raízes, o solo, e os seres da natureza.

No real centro dos Três Reinos, encontra-se o Bosque Sagrado onde o Fogo queima no Poço da Sabedoria sob a Árvore da Vida. É a esse bosque que todas as vivências e rituais devem transportar. A Árvore da Vida é o símbolo que conecta os Reinos e os Mundos: com seu tronco no mundo do meio, no reino terreno; suas profundas raízes que atingem as águas e o submundo; e com seus longos e altos galhos que tocam o céu e alcançam o mundo celestial.

E dessa forma, toda árvore é sagrada, ao ser um ponto de contato com os Três Reinos e com os Três Mundos. E toda existência está inserida no mundo sagrado, de maneira que tudo é sagrado e tudo flui conforme a Grande Canção.

Um lindo poema, de Caítlin Mathews, encontrado no site Templo de Avalon, resume os Três Reinos e nossa conexão com eles:

"Não sei qual o meu destino.
Viajo para muito longe das ondas.
Procuro minha alma, onde ela está?
Eu olho a estrela para me guiar de volta.

Há uma ilha no oeste,
Terra sob o Céu e sobre o Mar,
Viajo para muito longe em minha busca.
Procuro um guia para me conduzir.

Um ramo de prata em minha mão
Com flor de cristal e fruto dourado,
A mãe árvore cresce na praia;
É lá que eu devo encontrar minha raiz.

Há uma ilha no mar,
Onde as águas fluem e o alimento dá a vida,
Onde não há inimigo, onde o amor é livre.
Procuro um lugar onde não aja contenda.

Eu olho a estrela para me guiar para casa,
Encontro o repouso da minha alma e meu espírito,
Viajei muito além das ondas,
Pois não há fim em minha busca."

 --

  • Acompanhe os meus 30 Dias Druídicos e conheça o projeto / desafio pela página central, clicando aqui

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Dia 01: Por que Druidismo?

 

(Link da imagem)

Por Ávillys mac Mórrigan

Acho eu posso responder essa pergunta em uma frase: porque foi onde minha alma encontrou morada! Mas sei que é preciso explicar, e essa pequena viagem na minha escolha será gostosa... E temos que considerar o privilégio moderno de escolhermos nossa religião, religiosidade e espiritualidade. Coisas que os antigos não conseguiam tão facilmente. Mas será que isso era um ponto importante para eles? Em sua Solidariedade Mecânica, como diria Durkheim, será que isso era um ponto? Ou será que não só é possível agora na Solidariedade Orgânica, no mundo moderno e individualizado, como também é algo que só gerou inquietação em meio a essa individualização das experiências? Não sei... E creio que esse não seja o tema. Foquemos.

 A magia sempre fez parte de mim... Desde criança: os filmes, histórias, brincadeiras eram sempre repletas de fantasia e magia. Me lembro que eu tinha um caldeirão improvisado e brinquedos que meus pais e tios me davam para simbolizarem ingrediente de poções mágicas. Tinha meus livros de feitiços e tudo. Eu cresci! E os contos de fadas foram ficando de lado. Mas aos poucos, em meio ao ceticismo do mundo moderno, fui descobrindo respingos, reminiscências de magia. E quando pesquisei sobre o assunto na internet (ainda discada) descobri que isso não era apenas ficção, magia existe! Claro que não como nos filmes e histórias, não tão fantástica, mas existe.

Foi nesse contexto que comecei a procurar referências de livros, sites e conteúdos confiáveis sobre magia. Na época, eu tinha 13 anos. Cheguei então ao livro "Wicca, a religião dos bruxos" de Ligia Amaral Lima, da Jeito de Bruxa. Eu não podia comprar esse livro e não tinha como pedir aos meus pais que comprassem. Então eu ia secretamente todo dia na livraria ler um pouquinho do livro. De pouquinho em pouquinho, li o livro todinho e ao final, a autoria havia deixado seu MSN para contato. Receoso, fiz contato. Lá fui acolhido, recebi dicas e comecei a descobrir mais do que era viver naquele mundo. Na época muito focado na Wicca. Nas palavras de Ligia Amaral, que considero minha preceptora na magia, eu era um adolescente chato, uma mala sem alça! Perguntava tudo, queria saber de tudo... Mas não é assim que se aprende?! E felizmente pude contar com a paciência e confiança dela, que acreditou em mim, em meu potencial, em minha alma. Hoje, 16 anos depois, chamo carinhosamente ela de "mama", porque ela foi quase uma mãe na magia.

Mas ainda naquela época, o adolescente chato e encantado com a descoberta, começou a ler mais livros, escondidos e depois comprando alguns. Veio o momento em que os pais descobrem e aquilo vira um assunto complicado. Com tato, fui conversando explicando do que se tratava e ganhando mais liberdades. Em alguns anos, passaria a fazer rituais em casa e ter vários altares fixos no quarto.

Eu estava na Wicca, estudando e progredindo, já formando um grupo de estudos em minha cidade. Tinha 17 anos... E apesar de ver toda a beleza na Wicca, ainda tinha pontos teóricos da crença que eu não concordava, como se não fosse ali minha instância final. Foi então que cheguei ao site Templo de Avalon, da Rowena A. Seneween, e nele encontrei sobre Druidismo.

Desde antes, eu estava voltado aos deuses celtas. Ainda que o Egito me chamasse a atenção desde criança, eram os celtas que me fisgavam. E ali, naquele maravilhoso site, lendo e conhecendo mais sobre os celtas, sua religiosidade e cultura, seus deuses eu me encontrei. Minha alma foi se preenchendo com uma sensação de: é aqui que eu pertenço. Comecei então a direcionar meus estudos para o Druidismo.

A medida que estudava mais, mais essa sensação de pertencimento ficava mais forte. A medida que fui conhecendo mais sobre mitos e histórias da Irlanda, mais minha alma se reconhecia, eu chegava a chorar de saudades de um local que nunca estive nessa vida. Foi nessa época, já com 20, 22 anos, que formei um grupo de estudos sobre Paganismo em geral na universidade em que estudava, o GEP (Grupo de Estudos Pagãos), que depois, por um clamor coletivo por estudos práticos, se tornaria GPP (Grupo de Práticas Pagãs). Foi desse grupo que em 2013, nasceria o Leanaí an Ghealach Clann, um grupo druídico em Juiz de Fora / MG fundado por três amigos e estudiosos do Paganismo e do Celtismo.

As coisas progrediram rápido desde então... Em 2015 pude participar do VI Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Céltico (EBDRC) em Curitiba / PR, e me lembro bem do acolhimento que a comunidade me prestou, que cheguei lá sozinho, um completo forasteiro, com um grupo montado de quem ninguém nunca ouviu falar. Mas o acolhimento foi caloroso, e a sensação de pertencimento, nem se fala. No final do encontro eu chorei ao me despedir daquela comunidade presencial, já sentindo saudade, mas principalmente, porque sentia que tinha achado o meu lugar! Ali tive a certeza de que o Druidismo era a casa da minha alma.

Nesse mesmo evento, conheci pessoalmente Rowena Seneween e uma amizade maravilhosa se formou a partir de então. Algo que jamais esperava, pois a admiração por essa mulher é eterna. Em 2016 fui cahmado para entrar para seu grupo de estudos sobre o Ogham e foi mais uma honra e reconhecimento. E em 2016 comecei a ser chamado para palestrar e participar nos eventos da comunidade druídica. Desde então, não perdi quase nenhum! Também em 2016 filiei oficialmente o LaG ao Conselho Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Céltico (CBDRC) e nesse mesmo ano o LaG iniciou seus trabalhos públicos.

A cada passo mais inspirador tudo se tornava, os aprendizados, os progressos, os outros chamados. Druidismo não é uma religiosidade ou espiritualidade estática. É um local para quem tem coração de aprendiz, pois estamos sempre em movimento, estudando, aprendendo, (re)descobrindo, refletindo e reformulando. É um local para uma transformação constante, e é nesse fluxo que encontro minha paz, meu caminho. Numa religiosidade que honra e reconhece o sagrado da Terra e da ancestralidade, que me permite ser quem eu sou, sem que o verbo seja o "ser", mas sim o "estar".

Hoje cá estou, 2020, 29 anos, druidista, druida do LaG, e anfitrião do XII EBDRC, em 2021... É estranho quando nos encontramos, porque tudo progride rápido, ou o tempo passa e não reparamos. E eu só consigo explicar isso de uma forma: eu sentia o chamado, ainda que não soubesse de quem ou de onde, desde sempre. E fui ouvindo, seguindo meu coração e meus passos, até que pude ver formas, pessoas, grupos, comunidades, e entender as vozes dos deuses que me conduziam. Mas não eram eles que me chamavam, eles sempre estiveram ali, me esperando. O chamado era mais profundo, vinha da ancestralidade que habita minha alma, vinha de vidas e histórias que eu apenas sinto - não sei contar nem explicar, apenas sentir e saber que está ali.

Refazendo a resposta inicial: Druidismo porque foi onde minha alma encontrou a morada de outras moradas... Porque é onde meu coração fez instância, e minha mente criou significância. Porque é onde estão os meus!

 --

  • Acompanhe os meus 30 Dias Druídicos e conheça o projeto / desafio pela página central, clicando aqui.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Abertura de inscrições para Turma Semente 2020


O Leanaí an Ghealach Clann (LaG) abre inscrição para interessados em participar da Turma Semente de 2020!

⏳As inscrições até dia 21/08/2020
📝Inscrições podem ser feitas clicando aqui.
📆Início em 05/09/2020


ATENÇÃO: as confirmações de inscrição, links e procedências serão enviadas paro o e-mail cadastrado após o final das inscrições. Fique atento(a) a sua caixa de e-mail e a caixa de spam!


A Turma Semente é um curso que visa discutir o básico da espiritualidade céltica adotada e trabalhada pelo clã. As aulas serão totalmente ONLINE, por vídeo-aulas postadas semanalmente em um grupo privado do Facebook. As participações serão via fórum (comentários). Os links e materiais básicos também serão enviados aos e-mails dos participantes.

A Turma Semente é um projeto do LaG totalmente gratuito!

Venha estudar sobre a espiritualidade céltica conosco, de maneira segura e orientada!

Dúvidas? Entre em contato pelo Facebook, ou nos envie um e-mail: antecamara.lag@gmail.com

domingo, 2 de agosto de 2020

Live do Ritual de Lughnasadh



O Leanaí an Ghealach Clann, nesse momento de pandemia e isolamento social, optou por também transmitir ao vivo (in live) um ritual do Lughnasadh, nosso Festival de Honra e agradecimento a Colheita adaptado e executado pelo nosso druida, Ávillys mac Mórrigan, de sua casa em Juiz de Fora / MG.

Deixamos salvo esse vídeo em nossa página do Facebook, para aqueles que não puderam estar presentes, mas desejaram ou gostariam de participar ainda que em outro dia... Até o DIa de Ação de Graças (22/09), consideramos ser tempo do Lughnasadh. Se esse for seu desejo, e se for possível (não rompa o isolamento social), separe esses itens para se conectar e participar. Se não for possível ter um ou todos os elementos abaixo, não se preocupe. Sua conexão e vibração já serão suficientes.
  • 1 vela (amarela, ou, se não for possível, branca);
  • 1 cálice ou copo com uma bebida de sua preferência;
  • Se possível lã ou barbante (amarelo ou branco) para a confecção dos bonecos de Lughnasadh. Se você não conseguir a linha, separe 2 papéis: 1 com projetos futuros, e 1 com agradecimentos por situações e vitórias conquistadas (escreva um pedido por papel em um papel que nunca tenha sido usado);
  • Um potinho e moedas para o encanto do dinheiro (se for possível separe também um anzol, um pouco de canela em pau ou em pó, louro e cravo-da-índia, mas se não for, moedas, cédulas e um potinho devem bastar). Por segurança separe uma folha de papel para ajudar na selagem do pote;
  • prepare uma refeição gostosa para você e os seus para o final do rito.

No vídeo, nosso druida explica mais sobre o festival, seus simbolismos.

Para assistir a live no Facebook, clique aqui.