terça-feira, 16 de julho de 2019

Panteão Clânico - Parte 7: O deus Oghma

Os textos dessa série serão escritos sempre pelo nosso druida, Ávillys d'Avalon, e assim trazem as percepções, estudos e compreensões do druida e de nossas práticas clânicas, muitas vezes com um caráter profundo de gnose pessoal, ou seja, não dependendo muito de referências bibliográficas específicas. Muitas das bibliografias sobre os deuses celtas são profundamente pessoais e subjetivas já que os druidas do passado não nos deixaram efetivamente nenhum texto escrito ou orientação fundamental. 


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Por Ávillys d'Avalon.

Oghma (ou Ogma) é um dos grandes deuses celta-irlandeses. É o inventor mítico do Ogham (alfabeto celta-irlandês) e um deus de grandes atributos. Sua proximidades com o gaulês Ogmios levam a crer que se trate da mesma deidade. Também é comparado a Hércules / Heracles da mitologia greco-romana. Oghma é filho de Elatha com Eithiniu, portanto, neto de Balor, irmão de Dagda e meio irmão de Bres. É casado com Etain, filha de DianCécht.

Oghma é o deus da eloquência, da oratória, da nobreza, do conhecimento, da magia, e um campeão de guerra. Apesar de sua origem fomoriana, Oghma, assim como outros, se aliou às Tuatha dé Danann desde a Primeira Batalha de Magh Tuiread. Mas seus principais contos repassam no entre-guerras e na Segunda Batalha de Magh Tuiread, quando Nuada deixa de ser rei por perder seu braço em batalha e Bres, o Belo, é levado à liderança por escolha popular.
             
Nesse período tenebroso da história das Tuatha dé Danann, Bres foi um rei tirânico, que aumentou as taxações e os privilégios dos fomorianos enquanto explorava os danannianos. Oghma, por usa força e destreza, foi colocado para carregar lenhas e pedras, um trabalho muito abaixo de sua nobreza. Foi nesse tempo, que Oghma criou o Ogham, o alfabeto celta-irlandês registrado nos manuscritos irlandeses Auricept na n-Éces, Lebor Ogaim, Bríatharogam e Leabhar Bhaile an Mhóte (Book of Ballymote). Segundo o Lebor Ogaim, Oghma, qualificado no discurso e na poesia, inventou o Ogham e o nomeou a partir das árvores da floresta, registrando sua sabedoria em um código que só os cultos e os letrados poderiam ter acesso.
             
Quando Nuada recupera seu braço a partir das artes de Miach, filho de DianCécht, e também recupera o trono das Tuatha dé Danann, Oghma é promovido a Campeão do rei, e permanece campeão durante o reinado de Lugh. É quando acontece a Segunda Batalha de Magh Tuiread e Oghma mostra suas artes e façanhas contra os fomorianos. Ao final da batalha, Ogham encontra e torna sua a espada fomoriana Orna perdida no campo de batalha, uma espada mágica que canta suas conquistas.
             
Geralmente descrito como um homem de mais idade, Oghma é chamado de Giannach (“o ensolarado” / “o iluminado”), mostrando sua relação com o sol e com o conhecimento e a sabedoria (a iluminação). Também é chamado de Cermait (“o da boca de mel”), revelando sua eloquência. É um deus muito poderoso que também rege a nobreza, não econômica, mas de alma. Ele nos ensina o dom do trabalho nobre (seja ele qual for), a paciência (a espera do momento certo), e o poder libertador do conhecimento. Possivelmente, foi seu trabalho como lenhador na floresta que o permitiu conhecer os mistérios das árvores, e assim criar o Ogham. Outro aspecto importante, é que a nobreza nas sociedades célticas está associada às patentes ou feitios e heróis de guerra, o que Ogham também mostra e comprova por seus feitos em batalha.
             
O conhecimento, a nobreza, a dedicação, a lealdade, e a paciência são certamente características importantes dessa deidade, que geralmente é descrito como um homem de mais idade, carregando uma clava, com a língua para fora, de onde saem correntes que controlam os homens. Essa imagem, inicialmente grotesca, mostra o poder da fala e da eloquência, capaz de controlar os homens, para além da força bruta ou das aparências. Outra imagem sua é uma face ensolarada com a língua para fora, de onde também saem correntes, repetindo a associação, mas aqui trabalhando ele como iluminado.


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 Esse fato, nos lembra das Instruções de Cormac, que ensina sobre nobreza, condutas, lideranças e eloquência... Essas instruções foram dadas pelo rei Cormac ao seu filho e sucessor, Cairpre. Deixo a seguir o literal das Instruções de Cormac registrado por Bellouesus Isarnosno Bellodunon[1].
 

Tecosca Cormaic

Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

Do Leabhar Bhaile an Mhóta, “Livro de Ballymote”, RIA MS 23 P 12, 275 foll.

Ethne deu a Cormac um filho, seu primogênito, Cairpre, que foi rei de Ériu depois de Cormac. Foi durante a vida de Cormac que Cairpre subiu ao trono, pois ocorreu que, antes de morrer, Cormac foi ferido por uma lança e perdeu um dos olhos e era proibido que qualquer homem com um defeito fosse rei em Ériu. Assim, Cormac entregou o reino nas mãos de Cairpre, mas, antes de fazê-lo, transmitiu a seu filho toda a sabedoria que possuía no governo dos homens e isso foi anotado em um livro chamado As Instruções de Cormac. Estas palavras encontram-se entre seus ensinamentos:

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, quais são os deveres de um chefe numa taverna?
– Não é difícil dizer – disse Cormac.
– Bom comportamento em volta de um bom chefe,
Luzes para as lamparinas,
Esforçar-se pelo grupo,
Distribuição adequada de assentos,
Generosidade dos distribuidores,
Mão ágil ao servir,
Atendimento solícito,
Música com moderação,
Narrativas curtas,
Semblante jovial,
Amável saudação aos convidados,
Durante récitas, quietude,
Cantorias harmoniosas.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, quais teus costumes quando eras um rapaz?
– Não é difícil dizer – falou Cormac.
– Eu escutava nas florestas,
Fitavas as estrelas,
Era cego a respeito de segredos,
Silencioso nos ermos,
Palrador no meio da multidão.
Moderado no salão de festas,
Duro no combate,
Cortês para com os aliados,
Um médico para o enfermo,
Fraco para com o débil,
Forte para com o poderoso,
Não era íntimo para não me tornar inconveniente,
Não era arrogante, embora fosse instruído,
Conquanto capaz, não era dado a prometer,
Não era temerário, embora fosse rápido,
Conquanto fosse jovem, não zombava dos velhos,
Não era jactancioso, embora fosse bom lutador,
Não falaria de alguém em sua ausência,
A vituperar eu preferia exaltar,
A pedir eu preferia dar,
Pois é com tais costumes que os jovens tornam-se maduros e nobres guerreiros.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, qual é a pior coisa que tens visto?
– Não é difícil dizer: – falou Cormac – as faces de inimigos no tumulto da batalha.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, qual é a mais doce coisa que tens ouvido?
– Não é difícil dizer: – falou Cormac – o grito de triunfo depois da vitória, louvor depois dos esforços, o convite de uma dama para seu leito.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, que é o pior para o corpo de um homem?
– Não é difícil dizer: – falou Cormac – sentar-se por muito tempo, ficar muito tempo deitado, esforçar-se além das próprias forças, correr demais, saltar demais, cair muitas vezes, dormir com a perna por cima da grade da cama, olhar brasas acesas fixamente, cera, colostro de vaca, cerveja nova, carne de touro, comida azeda, comida seca, água do brejo, levantar-se muito cedo, frio, sol, fome, beber demais, comer demais, dormir demais, pecar demais, tristeza, subir uma elevação correndo, gritar contra o vento, secar-se ao fogo, o orvalho do verão, o orvalho do inverno, remexer cinzas, nadar de barriga cheia, dormir de barriga para cima, fazer brincadeiras idiotas.

– Ó Cormac, filho de Conn – disse Cairpre – quais são o pior pedido e a pior argumentação?
– Não é difícil dizer – falou Cormac.
– Combater contra o conhecimento,
Argumentar sem provas,
Escudar-se em linguagem imprópria,
Uma elocução tensa,
Falar resmungando,
Excesso de minúcias,
Provas duvidosas,
Desprezo aos livros,
Voltar-se contra os costumes,
Mudar o pedido,
Instigar a ralé,
Soprar a própria corneta,
Berrar a todo pulmão.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairpre -, quem são os piores com quem podes fazer uma comparação?
– Não é difícil dizer – falou Cormac.
– Um homem com o descaramento de um satirista,
Com a belicosidade de uma escrava,
Com a negligência de um cão,
Com a consciência de um patife,
Com a mão de um ladrão,
Com a força de um touro,
Com a respeitabilidade de um juiz,
Com saber engenhoso e perspicaz,
Com o discurso de um homem majestoso,
Com a memória de um historiador,
Com o comportamento de um abade,
Com o juramento de um ladrão de cavalos,
E sendo inteligente, mentiroso, grisalho, violento, blasfemo, falastrão, quando diz: “a questão está decidida, eu juro, jurarás também.”

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre – desejo saber como devo comportar-me entre os sábios e tolos, em meio aos amigos e estranhos, entre os jovens e os velhos, em meio aos inocentes e perversos.
– Não é difícil dizer – falou Cormac.
– Não sejas muito douto, não sejas muito néscio,
Não sejas muito presunçoso, não sejas muito acanhado,
Não sejas muito orgulhoso, não sejas muito humilde,
Não sejas muito falador, não sejas muito silencioso,
Não sejas muito rígido, não sejas muito débil.
Se fores muito douto, esperar-se-á muito de ti.
Se fores muito néscio, serás enganado.
Se fores muito orgulhoso, acreditar-te-ão molesto.
Se fores muito humilde, serás sem honra.
Se fores muito falador, não te darão atenção.
Se fores muito silencioso, não serás estimado.
Se fores muito rígido, serás quebrado.
Se fores muito débil, serás esmagado.

[Aqui terminam as Instruções de Cormac Ulfada, filho de Art, filho de Conn Cétchathach, filho de Óenlám Gaba, filho de Tuathal Techtmar, filho de Feradach Findfechtnach, filho de Crimthann Nia Nár, filho de Lugaid Riab nDerg, filho de Bres, Nár and Lothar, filhos de Eochaid Feidlech, filho de Find, Grande Rei de Ériu, que o filho de Art deu a seu primogênito, Cairpre Lifechair.]

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Podcast Celta Mania: bate-papo sobre RELIGIÃO

Foto por Joab Nascimento
 
Joab Nascimento, druidista e estudioso da cultura céltica, lança mais um super projeto pra nós da Espiritualidade Céltica em geral, o Podcast Celta Mania pelo SoundCloud!

E, com muita honra, nosso druida Ávillys d'Avalon (Dartagnan Abdias), junto com a druidesa da Tribo do Caldeirão das Ondas (Salvador / BA), Máh Búadach, foi convidado para abrir os diálogos desse projeto maravilhoso falando sobre RELIGIÃO em geral!

Bora conversar com eles! Segue o projeto que o Joab vai nos atualizar com constância!

Para acessar o Podcast, clique aqui.

sábado, 1 de junho de 2019

Panteão Clânico - Parte 6: O deus Lugh

Os textos dessa série serão escritos sempre pelo nosso druida, Ávillys d'Avalon, e assim trazem as percepções, estudos e compreensões do druida e de nossas práticas clânicas, muitas vezes com um caráter profundo de gnose pessoal, ou seja, não dependendo muito de referências bibliográficas específicas. Muitas das bibliografias sobre os deuses celtas são profundamente pessoais e subjetivas já que os druidas do passado não nos deixaram efetivamente nenhum texto escrito ou orientação fundamental.

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Por Ávillys d'Avalon.

Lugh é um deus bastante conhecido e reverenciado nos grupos de espiritualidade céltica até por ter um dos grandes festivais com seu nome, Lughnasadh. É conhecido como o deus dos 365 talentos, pois ele possui todos os talentos e foi esse o “talento” ou a proeza que o possibilitou ser aceito entre as Tuatha dé Danann (as tribos dos deuses talentosos). As Tuatha dé eram um dos povos divinos da Irlanda, e o pré-requisito para ser um Tuatha dé era ser talentoso em algo ímpar.

Lugh é filho de Cian, filho de DianCécht com Eithine, filha de Balor. Cian e Eithine em algumas versões estavam apaixonados, em outras apenas ele a cortejava. Mas Balor mandou aprisionar sua filha em uma fortaleza, pois fora profetizado que seu neto o destruiria. Entretanto, Cian rompe as forças de Balor discretamente e se deita com Eithine, que gesta e gera Lugh. Mas por segurança, ela escondeu e doou a criança, para que não fosse descoberta por Balor. Assim, Lugh é criado por Tailtiu, uma deusa e rainha dos Fir Bolg.

Lugh consegue, assim, “unir” os três povos divinos da Irlanda. Ele é filho de um Tuatha dé com uma fomoriana e é criado por uma Fir Bolg. Recordando: as Tuatha dé Danann é o povo que chega requisitando a soberania de Ériu (Irlanda) a partir de sua peregrinação pelas quatro ilhas ao norte do mundo (podemos pensar que representam a chegada dos celtas). Os Fir Bolg é o povo divino que habitava a Irlanda antes da chegada dos Tuatha dé Danann. E os Fomores são os deuses ou seres primordiais, geralmente cruéis, que habitam as profundezas dos mares.

Após a vitória, liderada por Nuada, das Tuatha dé contra os Fir Bolg na Primeira Batalha de Mag Tuired (Moytura), e após Nuada recuperar seu braço e reivindicar novamente o trono das Tuatha dé que até então estava com Bres, o Belo, um rei corrupto e tirânico, as Tuatha dé entram em guerra contra os Fomores, numa guerra que seria talvez a mais intensa da saga irlandesa. É nas proximidades dessa batalha que Lugh se junta às Tuatha dé Danann, apresentando possuir todos os talentos.

Ao revelar ao rei Nuada sua verdadeira origem, sua maestria militar e ser o neto da profecia que destruiria Balor, Lugh recebe o trono das Tuatha dé temporariamente, para guiar as forças contra os Fomores. A vitória só vem, entretanto, quando Lugh desafia Balor, o gigantesco rei dos fomores de um único olho enorme que quando aberto incendiava tudo que olhasse. Lugh usa a arrogância e prepotência de Balor e sua sagacidade e maestria para derrota-lo acertando seu olho com a lança (em algumas versões com uma pedra), arrancando o olho de Balor de sua cabeça e conduzindo-o ao céu, onde esse olho aquece e fertiliza os grãos. Para evitar problemas, Lugh prende a cabeça de Balor em um Espinheiro Branco que passa a ter uma sobrevida pelo veneno do sangue do rei fomoriano.

Após a vitória das Tuatha dé na Segunda Batalha de Mag Tuired, os fomorianos se retiram de Ériu, mas antes de fugir, Bres implora a Lugh por sua vida, oferecendo que os campos sempre tenham grãos, mas Lugh recusa, pois o ciclo da terra precisa ser mantido; em seguida oferecendo que as vacas sempre dariam leite, Lugh recusa, pois as vacas não poderiam estar sempre grávidas; ensinando a arte da agricultura aos Tuatha, o que é aceito por Lugh. Infelizmente, entre as baixas dessa batalha estava o rei das Tuatha dé, Nuada.

Lugh instituiu o festival da colheita, Lughnasadh, que acontece tradicionalmente em agosto, como um dia sagrado de jogos, feiras e competições em honra a sua mãe adotiva, Tailtiu, em honra ao sacrifício dela para que a terra se fertilizasse.

Desse modo, Lugh é reverenciado como o deus da poesia, da música, das artes, da vitória, das chuvas, do relâmpago, da medicina, dos talentos. Sua relação com as chuvas e com o relâmpago está em sua relação com Balor. O olho de Balor é associado ao sol quente demasiado, que é golpeado pela Lança de Lugh (raio), fazendo Balor sangrar (chuva). Erroneamente, Lugh é associado ao sol. Ele não é deus do sol, no máximo pode ser associado ao percurso solar (a retirada do olho de Balor, enviando-o aos céus).

É um deus a ser buscado nos momentos que estamos desenvolvendo projetos, buscando cura medicinal, ou aprimorando nossas artes e talentos. Mas também reverenciado nas colheitas, sejam elas metafóricas em nossas vidas, ou reais na agricultura.

Panteão Clânico - Parte 5: O deus Nuada

Os textos dessa série serão escritos sempre pelo nosso druida, Ávillys d'Avalon, e assim trazem as percepções, estudos e compreensões do druida e de nossas práticas clânicas, muitas vezes com um caráter profundo de gnose pessoal, ou seja, não dependendo muito de referências bibliográficas específicas. Muitas das bibliografias sobre os deuses celtas são profundamente pessoais e subjetivas já que os druidas do passado não nos deixaram efetivamente nenhum texto escrito ou orientação fundamental.



Por Ávillys d'Avalon.

Nuada é um deus talvez pouco reverenciado nos grupos célticos que conheço. Ainda que sua importância seja reconhecida e cantada nos mitos, confesso ouvir poucas referências a ele em cultos e afins. Por essa razão, entender praticamente esse deus é um tanto complexo.

Nuada é, antes de tudo, um dos grandes e nobres reis ou chefes das Tuatha dé Danann. As Tuatha dé Danann (as tribos dos deuses talentosos) eram os povos divinos da saga irlandesa que em sua peregrinação rumo a um local onde fossem soberanos, foram conduzidos pelo rei Nuada até Quatro Ilhas ao Norte do Mundo: Gorias, Murias, Falias, Findias. Nessas ilhas eles aprenderam as artes da druidaria e foram presenteados por quatro magos, um de cada ilha, com quatro joias / tesouros / armas, que quando reunidas daria soberania a quem as possuísse. A se saber: Esras de Gorias deu a Sleg Loga (Lança de Lugh), capaz de garantir a vitória de quem a possuísse. Semias de Murias deu o Coiri in Dagda (Caldeirão do Dagda), no qual qualquer guerreiro honrado encontraria todo alimento que precisasse. Morfessa de Falias deu a Lia Fal (Pedra de Fal), que gritaria ao ser tocada / sentada / pisada (há diferenças nas interpretações dos mitos) por um legítimo rei. E, por fim, Uiscias de Findias deu a Claideb Nuadat (Espada de Nuada), que depois de desembainhada jamais deixaria de atingir o inimigo.

Em posse desses quatro tesouros, Nuada guiou as Tuatha dé Danann até Ériu (Irlanda) em barcos voadores que pousaram em Ériu no dia 1º de maio, no festival de Beltaine, e queimaram seus barcos para garantirem que ali permaneceriam, propagando uma fumaça negra que escureceu o céu e aterrorizou os então habitantes daquele lugar, os Fir Bolg.

Os Fir Bolg eram um povo, também considerado sagrado / divino, predominantemente agrário que estabeleceram 20 anos de paz durante seu reinado, até o duelo com as Tuatha dé Danann.

Nuada, reconhecendo a presença dos Fir Bolg no local, mandou seu druida, Fingol, tentar um acordo com os Fir Bolg. Não haveria guerra se eles reconhecessem a Soberania das Tuatha dé sobre Ériu. Éochtrai, rei Fir Bolg, não aceitou o acordo, o que desencadeou na Primeira Batalha de Mag Tured (hoje Moytura, por ser localizada na costa oeste da Irlanda no condado de Mayo).

Foram muitos anos de incansável batalha, pois DianCécht, o druida e médico das Tuatha dé conseguia trazer de volta a vida todo morto que não perdesse a cabeça, por outro lado, os Fir Bolg possuíam uma fonte mágica que curava os moribundos e também ressuscitava os mortos em batalha. Assim a batalha permaneceu por anos a fio. Já desgastado pela interminável Batalha, Nuada teria rogado por uma resposta, algo que lhes concedesse a vitória. E, assim, encontra um belo corvo pousado sobre seu estandarte na entrada de sua tenda, e prontamente reconhece a deusa Morrigan, convidando-a para entrar. Ali, a deusa oferece um acordo: ela guiaria as Tuatha dé à vitória se Nuada a acolhesse em sua cama. Na manhã seguinte, o rei encontra a deusa em sua forma de corvo, sobre o estandarte acariciando suas penas e percebe-se inflado por um impulso inexplicável.

Dessa forma, ele lidera os exércitos e consegue grandes avanços sobre os Fir Bolg, até o momento onde o desafio é feito: Nuada desafia Éochtrai para um duelo encerrando a guerra. Como Éochtrai era também um rei orgulhoso e cheio de si, o desafio é aceito e Nuada acaba vencendo, matando o rei Fir Bolg. Mas o escudeiro de Éochtrai, em um acesso de raiva decepa o braço de Nuada.

A vitória foi dada às Tuatha dé, mas Nuada não poderia mais governar. Pois apenas um homem inteiro e saudável podia ser rei, pois da saúde do rei dependia a saúde da terra, e mesmo DianCécht dando um braço de prata a Nuada, não era o bastante para que ele garantisse seu direito de governar. Nuada sai em auto-exílio e em seu lugar Bres, o Belo, filo de Elatha, foi eleito para governar as Tuatha dé Danann. A eleição de Bres fora estratégica, pois ele era de origem fomoriana, e assim manteria a paz com os fomores com quem as Tuatha dé não queriam guerrear.

Os fomores seriam seres ou deuses primordiais, embrutecidos, muitas vezes concebidos como cruéis que habitavam as profundezas do mar. Apesar de Bres, filho de Elatha, irmão de Dagda e Oghma ter parecido uma escolha acertada, ele se mostrou um rei tirânico, que aumentava as cargas de tributos e extorquia as Tuatha dé enquanto dava incansáveis privilégios aos fomores sobre as terra de Ériu. Para pôr fim a esse reinado, era preciso que um rei legítimo desafiasse Bres, e por essa razão, Miach, filho de DianCécht, descobre um jeito de superar os feitos do pai e devolver um braço de carne e osso a Nuada, tornando-o novamente digno.

O pleito de Nuada ao trono conduz as Tuatha dé a uma guerra contra os fomores, uma guerra mais intensa do que a vivenciada contra os Fir Bolg, mas que acaba com a vitória das Tuatha após Lugh matar Balor, o rei fomor, arrancando seu olho incendiário. Para essa batalha, Nuada concede o trono temporário a Lugh, para que ele liderasse o povo a vitória, e infelizmente Nuada é morto em batalha.

Por essa razão, Nuada não é reverenciado como um deus, mas como um herói que hoje habita as Ilhas do Outro Mundo j
unto com nossos ancestrais. Sua reverência é uma autorreflexão, uma busca por soberania e cura em nossas próprias vidas. Sua história nos leva a pensar: qual impulso me falta para que eu conquiste o que desejo? Estou preparado e disposto para os sacrifícios que minhas batalhas demandam? Quando estou incompleto de alguma forma, não estou apto, não sou soberano sobre mim mesmo, nem sobre meu mundo particular, então preciso olhar fundo e recuperar a parte que falta, curar o que está doente para de fato alcançar minha soberania. E quando não sou o mais indicado, é bom, correto e honroso pedir ajuda, ceder espaço para que outro guie a vitória.

É sempre preciso buscar nosso impulso, sair da zona de conforto, encontrar e enfrentar nossas batalhas de maneira destemidas. Por essa razão, nesse dia também fazemos um apelo a Morrigan, para que ela dos dê a força e o impulso para vencermos nossas batalhas.

Nuada era o rei nobre de alma e espírito, justo e correto, que nos ensina que a honra deve estar acima do orgulho, que as tradições vem antes dos desejos pessoais, que nossa soberania depende de nossa própria conquista e que essa depende dos sacrifícios que lhe são típicos e exigidos.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Panteão Clânico - Parte 4: A deusa Arianrhod

Os textos dessa série serão escritos sempre pelo nosso druida, Ávillys d'Avalon, e assim trazem as percepções, estudos e compreensões do druida e de nossas práticas clânicas, muitas vezes com um caráter profundo de gnose pessoal, ou seja, não dependendo muito de referências bibliográficas específicas. Muitas das bibliografias sobre os deuses celtas são profundamente pessoais e subjetivas já que os druidas do passado não nos deixaram efetivamente nenhum texto escrito ou orientação fundamental. 


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Por Ávillys d'Avalon.
 
Arianrhod é uma grande deusa galesa. Seus mitos estão escritos no Mabinogion, um manuscrito medieval de mitos e histórias do País de Gales. Obviamente, o manuscrito foi contaminado por influências cristãs que moldaram certas percepções da deusa em si, para adequá-las ao papel de subserviência feminina. Entretanto, Arianrhod é uma das grandes deusas empoderadas que encorajam o empoderamento feminino.

Classicamente é referenciada como “a deusa celta da lua”, mas esse título é errôneo. Ainda que não haja nenhuma referência que terminantemente diga que ela não é deusa da lua, seus textos também não fazem referências ao satélite natural. Na verdade, não há registros nos dias atuais de um deus ou deusa celta da lua. Arianrhod é detentora de uma roda prateada (costumeiramente confundida com a lua), mas sua roda é uma roca por onde rege e tece os destinos. Sua morada é o Caer Arianrhod, uma fortaleza localizada nas estrelas, associado à constelação da Corona Borealis.

Assim, Arianrhod é a Deusa Estrelada, senhora dos céus, do Outro Mundo. Deusa da sabedoria, do renascimento, da fertilidade, da transformação e das iniciações. É uma deusa soberana, profundamente associada a iniciação dos mistérios femininos, mas não só, ela rege todos os mistérios.

O mito de Arianrhod nos conta que o rei Math ab Mathonwy havia recebido uma maldição: em tempos de paz, seus pés deveria repousar sobre o útero de uma virgem para que ele permanecesse vivo. Como a virgem responsável por essa tarefa iria se casar, Gwydion, conselheiro do rei, sugeriu que sua irmã, Arianrhod, assumisse o posto sustentando os pés do rei.

Para evitar uma catástrofe, a donzela deveria ser testada pelo cajado do mago Gwydion a respeito de sua virgindade. Quando Anrianrhod foi testada por seu irmão, apesar de ainda virgem, ela deu a luz a gêmeos: Llew Low Gyffes e Dylan. O primeiro a nascer foi Dylan, que escorregou e caiu no mar sendo criado por Manadweydan. O segundo, ficou no salão e foi amaldiçoado pela deusa.
Arianrhod lançou ao segundo filho três severas maldições. A primeira de que ele jamais receberia um nome, pois ela não o nomearia. A segunda de que ele jamais poderia ser armado. A terceira de que ele jamais desposaria uma mulher desse mundo. Após isso, enfurecida, a deusa se retirou para sua fortaleza.

O segundo filho foi criado por Gwyndion e quando o garoto tinha certa idade, o mago resolveu reverter a primeira maldição. Através de um encanto, mudou sua aparência e a do garoto, e o levou até os terrenos de Arianrhod. Lá enquanto Gwyndion disfarçado conversava com a deusa, o garoto brincava, acertando com precisão todas as pedras lançadas, o que levou Arianrhod a exclamar: “llew” (“brilhante”), rompendo o disfarce e mostrando sua trapaça, Gwydion conseguiu quebrar a primeira maldição, nomeando o rapaz do nome a ele referido por sua mãe: Llew.

Quando mais velho, Llew era excelente comandante e estrategista de guerra, mas não podia manusear armas, já que fora proibido por sua mãe e descumprir tal proibição poderia causar grande infortúnio. Vendo a tristeza do garoto, mais uma vez, seu tio buscou quebrar a segunda maldição. Em um novo encanto e disfarce, dessa vez de comerciante, os dois foram visitar a fortaleza de Arianrhod e pediram abrigo para pernoite. Durante a noite, Gwydion usou de encantos e magias para criar uma ilusão marítima de que a fortaleza estava sob iminente ataque e assim, aconselhou à grande senhora a “armar seu assistente, pois ele era muito versado militarmente”, e assim, Arianrhod rompeu sua segunda maldição armando o filho.

Por fim, não havia muito o que fazer para quebrar a terceira maldição, já que ela era bem específica: “nenhuma mulher desse mundo”. Após anos de reflexão vendo a tristeza do sobrinho em busca de um amor, Gwydion chegou a conclusão de que precisava dar a Llew uma mulher que não fosse desse mundo. Assim, ele colheu nove flores de rara beleza e delas criou a mais bela de todas as mulheres, Bloddewed, e ela tornou-se esposa de Llew.

Apesar dessa história dar um ar cruel a deusa, temos que reler essa história limpando os traços de tentativa de sobreposição da figura masculina sobre a feminina. Arianrhod é uma deusa feminina, forte e empoderada, que certamente não era bem vista no cristianismo. Por isso, proponho uma releitura.

A indicação de Gwydion para que a irmã sustentasse os pés de Math, mostra uma clara tentativa de rebaixamento da mulher, uma posição humilhante de subserviência, a qual deveria ser comprovada e testada pelo próprio conselheiro. Arianrhod se mostra imprópria para essa tarefa por seu poder de fertilidade, de supremacia, por seu empoderamento... E ela lança sobre o filho que ela não pediu para ter três desafios ou restrições que visavam tirar dele essa pretença supremacia.

Gwydion supera a irmã através da trapaça, mas é graças aos feitos dela de Llew pode prosperar e se tornar um dos mais valorosos e talentosos deuses. Arianrhod fora a controladora do destino e sua grande iniciadora em suas fases da vida: infância através da nomeação, adolescência através do armamento, vida adulta através da busca pela esposa ideal.

Arianrhod é líder, soberana e rainha de sua própria fortaleza. A essa deusa é dado o poder de tecer a trama e os destinos dos homens, ou seja, é pelas mulheres empoderadas que o destino dos homens é tecido e guiado. É ela quem controla nossos ciclos de vida, nossos destinos, nos iniciando e preparando para cada momento de nossas vidas. Ela é a guardiã dos mistérios mais profundos e sagrados, e aquela que abre as portas de nossas mentes para a sabedoria e a compreensão.

Arianrhod, não é uma deusa para qualquer culto ou pessoa. Passar pelas iniciações e mistérios conduzidos pela deusa, certamente mudará completamente você, sem chance de volta. E não será uma jornada fácil, você precisará mostrar seu valor. E a medida que seu amadurecimento, compreensão e transformação forem acontecendo, Arianrhod abrirá ainda mais as portas da sabedoria e dos mistérios profundos para você, te iniciando em novas jornadas, em novos ciclos. Mas um alerta cabe ser dado, para seguir na Roda de Prata da deusa, não se poderá permanecer aterrado, atado às coisas temporais, a abnegação é um dom necessário para a transformação.

Digo apenas que apenas o contato com essa deusa é capaz de fazer jus e descrever profundamente quem ela é e sua grandiosidade.

Sugestão de leituras:
 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Panteão Clânico - Parte 3: o deus Dagda

Os textos dessa série serão escritos sempre pelo nosso druida, Ávillys d'Avalon, e assim trazem as percepções, estudos e compreensões do druida e de nossas práticas clânicas, muitas vezes com um caráter profundo de gnose pessoal, ou seja, não dependendo muito de referências bibliográficas específicas. Muitas das bibliografias sobre os deuses celtas são profundamente pessoais e subjetivas já que os druidas do passado não nos deixaram efetivamente nenhum texto escrito ou orientação fundamental. 


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Por Ávillys d'Avalon.


Dagda, cujo nome significa “O Bom Deus”, é um dos deuses mais conhecidos e adorados dentre os povos celtas. É pai de Brighid, de origem fomoriana (seres ou deuses antigos, conhecidos por serem corruptos, cruéis), filho de Elatha e Eithiniu, irmão de Oghma e meio irmão de Lugh; foi aceito e se tornou parte dos Tuatha dé Danann.
            
 Geralmente é descrito como sendo um gigante (como a maioria dos fomores), Dagda possui uma clava mágica bifurcada chamada de Lorg Anfaidh, que quando usada de um lado poderia matar e do outro poderia trazer os mortos que ainda possuíssem cabeça de volta a vida. Sua clava seria gigantesca, precisando de nove homens para carregá-la. A ele também pertence a Uaithne, sua harpa de carvalho, com qual ele toca as melodias que mudam as estações do ano. Sua harpa toca em três frequências: Goltraí (melodia da tristeza), Geantraí (melodia da alegria) e Suantraí (melodia do sono / êxtase). Tanto a clava quanto a harpa são atributos que ligam Dagda como um deus do clima (a clava como representação do raio e a harpa com o poder de mudar e controlar as estações), sendo a ele atribuído os potenciais do plantio e da colheita.
             
Além disso, Dagda é o guardião do Coiri in Dagda (Caldeirão do Dagda), dado aos Tuatha dé Danann pelo mago Semias de Murias (uma das quatro ilhas ao norte do mundo onde os Tuatha dé Danann estiveram aprendendo as artes da druidaria e onde foram presenteados por quatro magos com os Quatro Tesouros que os possibilitaram possuir a soberania em Ériu [Irlanda]). O coiri in Dagda também é chamado como Caldeirão da Abundância, já que ele está sempre cheio de alimento. Assim, Dagda também é considerado deus da abundância, da prosperidade e da fartura, talvez seus principais atributos, uma vez que ele provém as colheitas e mantém consigo o caldeirão do eterno alimento.
            
 Outro atributo de Dagda é como deus da magia e da sabedoria, intitulado Rúadh Rofhessa (“Ruivo de Todo Conhecimento”), mostrando seus dotes como deus da sabedoria e do conhecimento. Na verdade seu nome / título “dagda” (“o bom deus”), não especifica que ele seja necessariamente bom no sentido de bondade, mas sim de que ele é bom em todos os ofícios ou atributos. Dagda é também chamado Eochaid Ollathair (“Cavaleiro Pai de Todos”) e de Aed Abaid (tradução desconhecida). O título “Pai de Todos” demonstra a importância dele enquanto deus da sobrevivência, da vida e da morte, do controle terreno. Ele é um pai que cuida de todos os seus filhos. É descrito assim como um deus de cuidados paternais, bondoso e generoso com aqueles que guia e protege.
            
 Dagda faz morada no Brugh na Boinne (hoje Newgrange), na Irlanda. Mas outros lugares também são associados a ele como Tara, colina de Uisneach, e o rio Unshinn, onde Dagda encontrou e se deitou com a deusa Morrigan trazendo soberania aos Tuatha dé Danann na segunda batalha de Magh Tuiread (Moytura).
            Deixo para vocês uma reflexão feita por Bellouesus Isarnos no Facebook[1] a partir das traduções de antigos manuscritos relacionados com o ciclo do conhecimento e sabedoria...


Rúad-Rofhessa (Senhor do Grande Conhecimento), isto é, um nome para o Dagdae (Sanas Chormaic, trad. John O’Donovan, 1868, p. 144).
Aisiu, isto é, Aed, era o filho de Dán (Poesia), filho de Osmenta (Observação), filho de Imrádud (Reflexão), filho de Rofhis (Grande Conhecimento), filho de Fochmarc (Interrogação), filho de Rochmarc (Pesquisa), filho de Rofhis (Grande Conhecimento), filho de Rochond (Grande Percepção), filho de Ergna (Entendimento), filho de Ecna (Sabedoria), filho dos três deuses da poesia, três filhos de Bres mac Elathan e Brigit, a poeta, filha do Dagdae Mór, que era chamado o Rúad Rofhessa, filho de todas as ciências (dána), isto é, um filho com quem estão todas as ciências (Lebor Laignech, fl. 194a, col.3).

O Grande Conhecimento
nasce da Poesia,
que nasce da Observação,
que nasce da Reflexão,
que nasce do Grande Conhecimento,
que nasce da Interrogação,
que nasce da Pesquisa,
que nasce do Grande Conhecimento,
que nasce da Grande Percepção,
que nasce do Entendimento,
que nasce da Sabedoria,
e é filho dos três deuses da poesia (tri dé dána),
nascidos de Bres, filho de Elatha, e de Brigit, filha do Dagdae Mór,
chamado Rúad Rofhessa (Senhor do Grande Conhecimento).


                        
“Eu sou Aed Abaid de Ess Rúaid, que é, o Bom Deus da feitiçaria da Tuatha Dé Danann, e Rúad Rofhessa e Eochaid Ollathair são meus três nomes.”


  •    Referência bibliográfica e leitura sugerida: "Quem é Dagda" in O Templo de Dagda.


[1] Transcrita no literal em Bellouseus Isarnos, Facebook.
 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Abertura de Inscrição para Turma Semente 2019



A Turma Semente é um projeto que visa discutir o básico da espiritualidade céltica adotada e trabalhada pelo clã. É como pensar que as pessoas são sementes que serão plantadas e regadas pelo conhecimento passado. Cada uma crescerá e germinará a seu tempo, de acordo com sua forma. As aulas serão totalmente ONLINE, por vídeo-aulas postadas semanalmente.

O Curso é gratuito aos interessados. As aulas começarão a partir de 25/02/2019, mas interessados poderão se inscrever até 02/03/2019.

--> Para se inscrever basta clicar aqui, preencher e aguardar contato oficial.

Venha estudar sobre a espiritualidade céltica conosco, de maneira segura e orientada!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Panteão Clânico - Parte 2: a Deusa Brighid

Os textos dessa série serão escritos sempre pelo nosso druida, Ávillys d'Avalon, e assim trazem as percepções, estudos e compreensões do druida e de nossas práticas clânicas, muitas vezes com um caráter profundo de gnose pessoal, ou seja, não dependendo muito de referências bibliográficas específicas. Muitas das bibliografias sobre os deuses celtas são profundamente pessoais e subjetivas já que os druidas do passado não nos deixaram efetivamente nenhum texto escrito ou orientação fundamental.


Imagem de autoria desconhecida




Por Ávillys d'Avalon.


 Brighid (Brigit, Brida, Bride, Brígida) é sem dúvida uma das mais conhecidas e adoradas deusas celtas. É poetisa, deusa do fogo, da cura, da inspiração, das águas, das batalhas, da vida e da morte. Celebrada principalmente na renovação da terra que se inicia no festival de Imbolc, no hemisfério norte ele antecede a Primavera. É considerada protetora dos bardos e patrona das artes.

      
 Sabe-se que ela é filha do Dagda (o Bom Deus), mas sua mãe é desconhecida nos dias de hoje, não nos chegou registros através do tempo e das histórias. Portanto, não há certeza se ela é de linhagem toda fomoriana ou parcial, já que Dagda é filho de pai e mãe fomorianos. Independente disso, ela é aceita, amada e adorada entre os Tuatha dé Danann, sendo casada com o fomoriano Bres, deus da agricultura, que durante seu reinado tornou-se um tirano entre os Tuatha dé até ser deposto por Nuada, o que conduziu à Segunda Batalha de Magh Tuiread, contra os fomorianos. Brighid teve um filho, Ruadan
            
 Vale lembrar que os Fomores seriam uma raça antiga e inacabada de seres e deuses do passado terrestres, com quem os Tuatha dé Danann (as tribos dos Deuses Talentosos da Irlanda) eram por vezes aliados e por outras inimigos.
           
 Brighid é conhecida por ser uma Deusa Tríplice, ou seja, possuir três lados ou três dons: a curandeira / médica, a ferreira, a bardisa. Posteriormente, foi canonizada pela Igreja Celta (uma Igreja de base católica local nas Ilhas Britânicas, mas ainda não reconhecida oficialmente pelo Vaticano), como Saint Brighid (ou Santa Brígida), padroeira da Irlanda. Entre os milagres da santa, descreve-se que ela possuía três fogos: o fogo da lareira, onde preparava a cura com as ervas; fogo nas mãos, que representava seu trabalho manual com a forja; e o fogo sobre a testa, representando o Imbas, a inspiração. Ela regia poços mágicos e sagrados. No mito, dois doentes (possivelmente lepra) teria chegado a ela pedindo cura, ela ordenou que o primeiro se banhasse em seu poço, e quando o fez, saiu curado. Então ela ordenou que o primeiro (que havia se curado) banhasse o segundo para também curar o amigo. Agora curado, o primeiro se recusou a tocar no amigo, mesmo sob o comando da deusa / santa, e assim, Brighid curou o segundo e devolveu a doença ao primeiro, ensinando que o amor deve estar além das aparências.
             
Hoje, sob tutela da Igreja Celta, em Kildare / Irlanda, existe um Poço sagrado, em que são atribuídas propriedades mágicas a água, consagrado a Santa Brígida.
             
Contudo, o que muitos também não sabem, é que a deusa possui um lado sombra, um quarto lado... A morte. Ela é deusa da morte, em geral associada à boa morte, tanto quanto é protetora das parturientes. A morte, pode ser vista como uma cura para o sofrimento que não possui cura terrena, e assim também é uma das artes de Brighid. Ela possui quatro animais sagrados, apesar de ser a vaca branca com orelhas vermelhas o mais conhecido. Mas não devemos nos esquecer da cobra, do lobo e do abutre. A vaca é sinal de prosperidade, vida; além disso a vaca branca com orelhas vermelhas é conhecida por ser uma condutora com o Outro Mundo, outras vezes, um animal pertencente ao Outro Mundo. A cobra, sinal de conhecimento e independência. O lobo remete à família, ao doméstico. E o abutre, à morte.
           
 Enquanto deusa, ela é celebrada e adorara por carregar consigo o Imbas, o fogo sagrado da inspiração e da elevação espiritual que queima na testa dos artistas. Sua devoção é um tanto quanto profunda, já que ela toca e mexe no profundo, na essência. Sua cura é uma cura que vem de dentro para fora, do espiritual para o físico. Sua forja endireita e ensina os homens a viver e a lutar pela e através da honra. No paganismo, não há quem tenha contato com essa deusa e não se apaixone. Em sua potencialidade, ela eleva sempre o que há de melhor em nós, auxiliando na purificação dos males e negatividades.
             
Ela faz parte de uma das deusas mais adoradas no feminismo, por se mostrar sempre uma deusa da potencialidade indomada e livre do feminino. Além disso, sobreviveu ao tempo e a cristianização, mantendo-se forte inclusive no cristianismo, com várias orações e preces que sobrevivem à história e parecem se remeter a uma deusa que abençoa e cuida das mulheres, mais do que a uma santa.



  • Prece medieval de Brighid que sobreviveu os séculos: no Youtube 



Letra (irlandês):
Gabhaim molta Bríghde, iníon í le hÉireann
Iníon le gach tír í, molaimís go léir í.
Lóchrann geal na Laighneach, soils' ar feadh na tíre
Ceann ar óigheacht Éireann, ceann na mban ar míne.

Tig an Geimhreadh dian dubh, gearra lena géire
Ach ar lá le Bríghde, gar dúinn Earrach Éireann.
Gabhaim molta Bríghde, iníon í le hÉireann
Iníon le gach tír í, molaimís go léir í.

Tradução Livre (por Ávillys d’Avalon):
Eu faço uma prece a Brigit, filha da Irlanda
Filha de todas as terras, deixe-nos fazer uma prece a ela
A brilhante lanterna de Lainster, brilhando pelo país
A jovem líder da Irlanda, líder das mulheres

A casa do inverno está escura, golpeando com precisão
Mas no Dia de Brigit, na Irlanda a primavera se aproximará de nós
Eu faço uma prece a Brigit, filha da Irlanda
Filha de todas as terras, deixe-nos fazer uma prece a ela