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quinta-feira, 18 de junho de 2020

Live do Festival da Soberania


O Leanaí an Ghealach Clann, nesse momento de pandemia e isolamento social, optou por também transmitir ao vivo (in live) um ritual do solstício de junho, nosso Festival da Soberania (Féile an Fhlaithis) adaptado e executado pelo nosso druida, Ávillys mac Mórrigan, de sua casa em Juiz de Fora / MG.

Deixamos salvo esse vídeo em nossa página do Facebook, para aqueles que não puderam estar presentes, mas desejaram ou gostariam de participar ainda que em outro dia... Até o Lughnasadh (03/08), consideramos ser tempo do Festival da Soberania. Se esse for seu desejo, e se for possível (não rompa o isolamento social), separe esses itens para se conectar e participar. Se não for possível ter um ou todos os elementos abaixo, não se preocupe. Sua conexão e vibração já serão suficientes.
  • 2 vela (laranja / azul, ou, se não for possível, branca);
  • 1 cálice ou copo com uma bebida de sua preferência;
  • papéis com pedidos escritos (escreva um pedido por papel em um papel que nunca tenha sido usado);
  • prepare uma refeição gostosa para você e os seus para o final do rito.

No vídeo, nosso druida explica mais sobre o festival, seus simbolismos.

Para assistir a live no Facebook, clique aqui.

Se seguirem a Roda Sul e desejarem um rito de Yule, indicamos o vídeo performado pela sacerdotisa wiccana Mariana Leal. O vídeo da sacerdotisa pode ser assistido clicando aqui.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Panteão Clânico - Parte 10: as Morrigna


Os textos dessa série serão escritos sempre pelo nosso druida, Ávillys d'Avalon, e assim trazem as percepções, estudos e compreensões do druida e de nossas práticas clânicas, muitas vezes com um caráter profundo de gnose pessoal, ou seja, não dependendo muito de referências bibliográficas específicas. Muitas das bibliografias sobre os deuses celtas são profundamente pessoais e subjetivas já que os druidas do passado não nos deixaram efetivamente nenhum texto escrito ou orientação fundamental.


Imagem 1: As Morrigna
 Por Ávillys mac Morrigan

As Morrigna são um trio de deusas irlandesas da guerra. São deusas reverenciadas e temidas durante as batalhas. O trio seria composto pelas três irmãs, filhas de Ernmas e Delbáeth: Morrígan, Macha e Badb. Sua linhagem é confusa, ora é atribuída às Tuatha dé Danann, ora aos Fomorianos e, muitas vezes, vistas como mestiças dos dois povos. É inquestionável, no entanto, de que as irmãs fossem uma Tuatha dé em lealdade e são mitologicamente reconhecidas assim. Mas elas não eram muito referenciadas no dia a dia das tribos, o que nos faz pensar de que, possivelmente, eram deusas mais reclusas, e que se juntavam às tribos nos momentos de guerra ou de grande necessidade, vindo sempre em auxílio das Tuatha dé Danann e sempre influenciando o resultado final das batalhas.

Para além de exímias guerreiras, as três filhas do rei Ernmas eram habilidosas feiticeiras, versadas na Rosc Catha (maldição ou canto de guerra) – a mais famosa delas se passou na Primeira Batalha de Maegh Tuiread (Moytura) quando as três irmãs conjuraram uma chuva de sangue incessante sobre os Fir Bolg, provocando pavor nos campos de batalha.

Outro aspecto importante dessas irmãs, são como deusas da soberania. Principalmente Morrígan e Macha estão profundamente ligadas a esse aspecto. Macha representa a soberania da terra doada pela própria terra ao governante, enquanto Morrígan representa a soberania conquistada a partir da honra e da guerra. A soberania para os celtas era sempre feminina, doada, conquistada ou compactuada pelo governante. Em termos gerais, um rei só pode governar se a terra lhe garantir sua soberania. Isso liga essas irmãs a outro lado pouco cultuado ou referenciado a elas: a terra. O lado guerra e morte não exclui essas irmãs como deusas da terra e da fertilidade.

Marcadas por um completo empoderamento feminino, essas deusas são reverenciadas em sua autonomia e completude: como mulheres empoderadas, soberanas, guerreiras, feiticeiras, profetisas. São mulheres livres, independentes do julgo de qualquer homem que também regem a sexualidade. Por essa razão, elas foram fortemente negativadas no percurso de cristianização do mundo e ainda hoje há muito tabu e erro a respeito de seu culto, poder e abrangência.
Morrígan (ou Morrigu), cujo nome pode ser derivado de Mór Ríogain (Grande Rainha) ou de Mor Ríogain (Rainha Fantasma), é deusa da guerra, da profecia, da magia e da honra. É chamada de a “Feliz com a Guerra” e geralmente descrita como feroz e mortal em uma batalha. Em alguns mitos, ela aparece para alguns líderes antes da batalha pedindo para ser acolhida em sua cama (como teria feito com o rei Nuada no final da Primeira Batalha de Maegh Tuireadh). Após a acolhida (que pode ser vista como um pacto) a deusa dá a inspiração e a força necessária para a vitória. Em outros casos, ela é vista como uma Banshee, uma lavadeira, que lava as mortalhas dos heróis que cairão durante a batalha no dia seguinte. Referência a isso é a passagem na Segunda Batalha de Maegh Tuireadh em que Dagda encontra a deusa lavando as mortalhas no vau de um riacho ao pôr do sol, e ali, seduzido pelos encantos e belezas da deusa, Dagda e Morrígan se envolvem, e momento após, ela revela a ele os meios de vencer os fomorianos.

Essa é a deusa madrinha (padroeira) do clã, e nesse percurso com ela aprendemos muito. A liberdade sexual e a entrega representam a liberdade mais profunda e íntima em nós mesmos, sem a qual não podemos ser de fato livres. A guerra, quando lutada com honra e por motivos honrados, é um caminho legítimo de conquista da soberania (e isso pode ser estendido a compreensões mais amplas, como as batalhas que lutamos no dia a dia, em nossa sociedade, as batalhas pessoais). A lealdade (para consigo mesmo antes de qualquer outra) é fundamental para vitória. A responsabilidade por nossas escolhas e ações jamais deve ser flexibilizada. E a honra deve ser sempre inquestionável. Os caminhos dessa deusa nos conduzem a reflexão sobre a honra e sobre como vivemos e lidamos com nossas próprias vidas.

Morrígan, que geralmente se transforma em corvo, mas que pode vir como diversos outros animais, é uma deusa que nos inspira a vencer, a lutar, a seguir em frente. Uma deusa protetora e leal aos seus, mas que exige honra e coerência de seus devotos. Em seus caminhos, aprendemos que apenas com soberania é possível ter legitimidade, e a soberania (que deve começar primeiro dentro: sendo soberanos de nós mesmos) deve ser conquistada: pela honra e pela batalha; mas ela deve ser mantida na paz através da verdade.
 Macha é a deusa da terra, da fertilidade e da soberania. Ainda que essa deusa esteja fortemente ligada à guerra junto de suas irmãs, os principais aspectos de reverência dessa deusa envolvem a soberania da terra ou a terra em si. Mas há de se ter cuidado! Há outras deusas ou personagens da mitologia irlandesa com esse mesmo nome e, muitas vezes, é fácil de confundir a Macha, filha de Ernmas com a Macha, filha de Partholón; Macha, esposa de Nemed; Macha Mong Ruad (dos cabelos vermelhos); Macha, esposa de Cruinniuc. Há quem diga que todas são a mesma Macha, e outros que dizem que são pessoas completamente diferentes. De fato, algumas similaridades a elas podem ser colocadas para além dos nomes: a terra. Todas são ou estão ligadas de alguma forma a terra e em geral a soberania.

De toda forma, Macha, enquanto parte das Morrigna, é uma deusa guerreira, uma mulher livre e empoderada, que está associada a fertilidade da terra. É uma deusa conhecida e reverenciada por seu poder de fertilizar a terra, de arar os campos, e de garantir soberania a quem caísse nas graças de seu afeto. Ela é a terra soberana e, diferente de Morrigan, representa a soberania doada / recebida pela honra e pelo mérito. Mas não é uma deusa tão simples, assim como as irmãs, ela está ligada também a morte. Aqui podemos falar exatamente do ciclo, da vida e da morte.

Muitas vezes é associada à agricultura e ao pastoreio. É geralmente representada como uma mulher grávida cercada de cavalos ou como uma própria égua. O cavalo, para os celtas, é símbolo de soberania, e tem associação direta com a Macha, esposa de Cruinniuc, que teria sido forçada a correr grávida contra os cavalos do rei após seu esposo bêbado ter deixado escapar que ela seria capaz de vencer os cavalos reais em uma corrida. Já seu aspecto “mãe” (gravidez) é uma possível referência ao ciclo de vida e morte. Enquanto a ela é dada a colheita dos crânios decapitados na batalha (Colheita de Macha), por ela também é garantida a fertilidade, a vida, a continuidade e a soberania aos vitoriosos e merecedores.

Um detalhe ou curiosidade é que, para os celtas, a cabeça seria o lar de nossa essência, portanto onde guardamos nossa soberania. Ofertar as cabeças dos abatidos em combate era também ofertar a soberania reclamada ou subjugada, o derrotado ao ter sua cabeça na posse de seu conquistador, tinha sua essência igualmente conquista.

O que essa deusa nos ensina é que a vida depende da morte, e vice-versa. A soberania, a continuidade e a paz dependem do nosso merecimento, da validade de nossas ações e da responsabilidade que assumimos perante elas. Sacrifícios são fundamentais para se alcançar nossos objetivos, mas eles devem ser justos e coerentes.

Badb é a terceira e a menos referenciada das irmãs. Seu nome significa “corvo” e ela geralmente está associada ao terror e a carnificina. Em geral é descrita como uma mulher profundamente sedutora, sexualmente livre e socialmente empoderada. Seu domínio é sobre o espiritual, principalmente nos seres e espíritos caóticos e cruéis do Outro Mundo. Ela é o corvo que sobrevoa as batalhas, inspirando a matança e depois se deliciando com a carnificina. É reconhecida enquanto exímia profetisa, e senhora da visão sobre o oculto e o futuro.

Apesar desse lado tão denso, Badb é necessária. Em um aspecto mais inicial, alguém precisa lidar com esse lado das forças, alguém precisa lidar com o caos e limpar, purificar o derramamento de sangue das batalhas. O corvo e outros animais e pássaros carniceiros são necessários na limpeza, manutenção e até purificação do mundo natural. Inclusive, eles ajudam muito na contenção de doenças provenientes da carne podre. Assim sendo, podemos pensar em Badb também como uma purificadora, mas uma que age através do malefício, do caos para reestabelecer a ordem. Ela é necessária, mas deve ser evitada.

Em nossas experiências no clã, ela se mostra como a “sedução ao crime” a qual devemos evitar cair em tentação, pois é assim que ela nos testa, testa nossa honra e bravura, nos estimulando a seguir pelo oposto, pela desonra, entrando no caminho do medo, do pavor, do terrível. E assim, através dela, entraríamos no estupor de uma batalha cega de propósito, na qual estaríamos de fato perdidos até retomarmos nossa responsabilidade, lealdade e honra. Ou, em outros casos, poderíamos ser considerados seus inimigos e sofrermos seus ataques de loucura e pavor, ficando efetivamente paralisados, inertes e aprisionados em nós mesmos, nos medos, nas vergonhas que carregamos.

Ela é a testadora, a sedutora e aquela que nos infla a lutar. Mas antes da batalha, devemos ter certeza que superamos seu teste, que resistimos a sua sedução e que lutaremos com propósito e honra.

Ainda que possam ser vistas e cultuadas separadamente, as três irmãs devem ser vistas como uma só, pois apenas a ação das três, das Morrigna, pode ser efetiva e completa: o teste e o impulso de Badb, a batalha e a honra de Morrigan, o merecimento e a vitória com Macha. Particularmente, eu também associo as Morrigna à justiça: Morrígan é o júri, Macha é o juiz e Badb é o carrasco. Em outros termos, Morrígan delimita se nossa disputa é justa, Macha nos dá o que nos é merecido, e Badb executa a sentença, a vingança contra o que nos foi cometido. Também associo as três à morte, a passagem em si: Badb é a morte, Morrígan a condutora, Macha aquela que nos recebe no Outro Mundo e também nos guia (nos gesta) de volta a esse mundo.

Muito se projeta em temor a essas deusas, ainda mais por trabalharem lados que ainda nos são tabus, como a morte e a guerra. Mas elas nos ensinam a ver a morte, a vida e as batalhas com outro olhar, nos livra desses tabus e imposições sociais diversas, nos guiando num doloroso e necessário processo de empoderamento pessoal. Nos dias de hoje, elas se mostram cada vez mais necessárias. Aventurar-se por suas graças certamente será um caminho difícil, mas a liberdade e o empoderamento serão recompensas que valerão cada obstáculo e dificuldade no caminho. A exigência e o peso dessas deidades é recompensado na conquista de nossa soberania pessoal.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Panteão Clânico - Parte 9: O deus Manannán

Os textos dessa série serão escritos sempre pelo nosso druida, Ávillys d'Avalon, e assim trazem as percepções, estudos e compreensões do druida e de nossas práticas clânicas, muitas vezes com um caráter profundo de gnose pessoal, ou seja, não dependendo muito de referências bibliográficas específicas. Muitas das bibliografias sobre os deuses celtas são profundamente pessoais e subjetivas já que os druidas do passado não nos deixaram efetivamente nenhum texto escrito ou orientação fundamental. 


Link da imagem
 
Por Ávillys mac Morrigan



Manannán é um dos deuses mais cultuados e conhecidos dentre os panteões célticos, provavelmente por ele ser igualmente conhecido e cultuado em muitos países celtas (Irlanda, Escócia, Gales, Ilha de Man). Em Gales há a polêmica se seria ou não o mesmo deus, o Leanaí an Ghealach acredita que sim. Em Gales ele seria chamado de Manawydan Fab Llyr, enquanto nos demais países gaélicos, ele é conhecido por Manannán Mac Lir. Além da visível proximidade dos atributos, a proximidade do nome fica ainda maior quando constatamos que em gaélico antigo seu nome era escrito como Manandán.
             
Manannán possui dois “sobrenomes” relacionados: Mac Lir e Mac Alloit. O primeiro é o mais referenciado e conhecido e poderia ser traduzido com “Filho de Ler”, ou “Filho do Mar”. Lir seria o próprio mar, ou, poderíamos dizer, um deus antigo cujas forças seriam o próprio mar. Manannán é reverenciado como o deus do mar, ou o deus que controla os mares. Seu segundo “sobrenome” poderia ser traduzido como “Filho de Alloit” ou “Filho da Terra / Solo”. A esse respeito muito pouco se sabe, mas talvez seria uma referência a sua maternidade... Assim, Manannán é literalmente filho da terra e do mar.
             
O gaélico deus dos mares também possuía o atributo de guardião e governante do Outro Mundo, aquele que guarda os portais entre os mundos. Ele possui uma barca mágica chamada Scuabtuinne. Essa barca teria o poder de jamais afundar e a capacidade de carregar seus passageiros para qualquer lugar desse e do Outro Mundo. Além da barca mágica, Manannán era um grande colecionador de tesouros, e assim sendo, ele também possuía uma misteriosa e enevoada capa da invisibilidade chamada de Féth Fiada, uma poderosa espada chamada Fragarach, sua espada seria capaz de atravessar qualquer armadura e, quando apontada para um alvo, obrigava a pessoa a responder sinceramente a qualquer pergunta; e um cavalo mágico chamado Enbarr, que cavalgava sobre as águas e poderia levar qualquer um em uma viagem segura entre os reinos.
             
Outros tesouros ou feitos também são associados a ele com o Mucca Mhannanain, um porco cuja carne se regenera quando abatido para consumo, uma vaca manchada recuperada por ele e Aengus da Índia cujo leite intoxicante era viciante, uma vaca seca, dois cálices de ouro. Teria ele também dado as Tuatha dé Danann o Fleadh Goibhneann (Banquete de Goibiniu) que teria protegido as Tuatha dé de doenças e da decadência.
             
Ele foi o deus responsável pelo treinamento militar do deus Lugh. Quando Lugh foi se juntar as Tuatha dé Danann na batalha contra os Fomores, Manannán o presenteou com casaco ou roupa que, enquanto usasse, o faria não ser ferido; uma armadura impenetrável; e um elmo com duas pedras cravejadas (uma a frente e uma atrás) que brilhava enquanto ele se movia. Então o deus dos mares abençoou Lugh com sua espada e emprestou a Lugh seu cavalo Enbarr.
             
Cormac mac Airt teria recebido de Manannán o Ramo de Prata, um galho de macieira contendo maçãs mágicas que quando balançado soava um doce som que encantava os sídhe, permitindo que ele viajasse em segurança entre os mundos... Hoje o Ramo de Prata é parte integrante do druidismo, um instrumento poderosíssimo feito com galhos e guizos que, quando soado, sacralizam e encantam o ambiente, as ações e pensamentos ali realizados.
            
 Manannán residiria e governaria em Emhain Abhlach (a Ilha das Maçãs), comumente associada a Ilha de Man. Tecnicamente, essa ilha protegida pelas mágicas névoas de Manannán, teria recebido esse nome em sua homenagem. Durante o Solstício de Verão, era comum que os habitantes da ilha, subissem o monte para deixar oferendas ao deus, como tributo e pagamento de “aluguel” pelo usufruto das terras de Manannán. A ele também são associados o governo e as Ilhas Abençoadas (ilhas mágicas espalhadas pelo mundo), a Tír na nÓg (Terra da Juventude presente no Outro Mundo) e a Mag Mell (a Planície das Maravilhas no Outro Mundo)
             
O deus também teve várias esposas, amantes e filhas e filhos. É um deus que, apesar da poligamia, enfatiza muito o bom tratamento, respeito e convívio. Em seus mitos sempre fora cortês, sedutor e respeitador de todas as mulheres, sempre as valorizando. Entre suas esposas mais famosas temos as deusas feéricas Fand e Áine. Era também relacionado ao comércio, a magia, a nobreza. Sempre descrito de maneira muito elegante, nobre e sedutora. Mas também é considerado um trickster (brincalhão), um deus famoso por pregar peças nas pessoas.
             
Manannán é, sem dúvida, um deus de muitos atributos, inebriante como mar. Envolvente, sedutor, imponente, profundo e misterioso. Se aproximar e contemplar esse deus é, sem dúvida, sair numa jornada profunda de encontro e reencontro... É um deus que nos ensina a nobreza e a manter sempre seguro aquilo nos é caro e precioso. Ele rege nossos desafios, jornadas e viagens, principalmente as experiências espirituais, os mistérios da morte. Em sua barca e sob sua guia, podemos fazer nossa jornada mágica tanto metaforicamente ou espiritualmente, quanto o faremos no momento de nossa morte.
             
Contudo, lidar com esse deus requer honra, nobreza, discernimento e muito bom humor. Apesar de ser um clássico brincalhão, como todo mar é, ele pede seriedade, atenção e concentração. Nos ensina a olhar por além dos encantos e seduções, e quando alcançamos esse estágio, nos guia de forma segura até a realização de nossos objetivos. Como um navegante, conhecedor e frequentador de muitos portos e povos, Manannán reforça em nós o senso e o sentido de hospitalidade, moeda que deve ser levada em consideração nos dois lados, tanto vale para o visitante quanto para o anfitrião. O respeito e a nobreza de alma são sempre valores fundamentais no contato com o outro.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Panteão Clânico - Parte 7: O deus Oghma

Os textos dessa série serão escritos sempre pelo nosso druida, Ávillys d'Avalon, e assim trazem as percepções, estudos e compreensões do druida e de nossas práticas clânicas, muitas vezes com um caráter profundo de gnose pessoal, ou seja, não dependendo muito de referências bibliográficas específicas. Muitas das bibliografias sobre os deuses celtas são profundamente pessoais e subjetivas já que os druidas do passado não nos deixaram efetivamente nenhum texto escrito ou orientação fundamental. 


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Por Ávillys d'Avalon.

Oghma (ou Ogma) é um dos grandes deuses celta-irlandeses. É o inventor mítico do Ogham (alfabeto celta-irlandês) e um deus de grandes atributos. Sua proximidades com o gaulês Ogmios levam a crer que se trate da mesma deidade. Também é comparado a Hércules / Heracles da mitologia greco-romana. Oghma é filho de Elatha com Eithiniu, portanto, neto de Balor, irmão de Dagda e meio irmão de Bres. É casado com Etain, filha de DianCécht.

Oghma é o deus da eloquência, da oratória, da nobreza, do conhecimento, da magia, e um campeão de guerra. Apesar de sua origem fomoriana, Oghma, assim como outros, se aliou às Tuatha dé Danann desde a Primeira Batalha de Magh Tuiread. Mas seus principais contos repassam no entre-guerras e na Segunda Batalha de Magh Tuiread, quando Nuada deixa de ser rei por perder seu braço em batalha e Bres, o Belo, é levado à liderança por escolha popular.
             
Nesse período tenebroso da história das Tuatha dé Danann, Bres foi um rei tirânico, que aumentou as taxações e os privilégios dos fomorianos enquanto explorava os danannianos. Oghma, por usa força e destreza, foi colocado para carregar lenhas e pedras, um trabalho muito abaixo de sua nobreza. Foi nesse tempo, que Oghma criou o Ogham, o alfabeto celta-irlandês registrado nos manuscritos irlandeses Auricept na n-Éces, Lebor Ogaim, Bríatharogam e Leabhar Bhaile an Mhóte (Book of Ballymote). Segundo o Lebor Ogaim, Oghma, qualificado no discurso e na poesia, inventou o Ogham e o nomeou a partir das árvores da floresta, registrando sua sabedoria em um código que só os cultos e os letrados poderiam ter acesso.
             
Quando Nuada recupera seu braço a partir das artes de Miach, filho de DianCécht, e também recupera o trono das Tuatha dé Danann, Oghma é promovido a Campeão do rei, e permanece campeão durante o reinado de Lugh. É quando acontece a Segunda Batalha de Magh Tuiread e Oghma mostra suas artes e façanhas contra os fomorianos. Ao final da batalha, Ogham encontra e torna sua a espada fomoriana Orna perdida no campo de batalha, uma espada mágica que canta suas conquistas.
             
Geralmente descrito como um homem de mais idade, Oghma é chamado de Giannach (“o ensolarado” / “o iluminado”), mostrando sua relação com o sol e com o conhecimento e a sabedoria (a iluminação). Também é chamado de Cermait (“o da boca de mel”), revelando sua eloquência. É um deus muito poderoso que também rege a nobreza, não econômica, mas de alma. Ele nos ensina o dom do trabalho nobre (seja ele qual for), a paciência (a espera do momento certo), e o poder libertador do conhecimento. Possivelmente, foi seu trabalho como lenhador na floresta que o permitiu conhecer os mistérios das árvores, e assim criar o Ogham. Outro aspecto importante, é que a nobreza nas sociedades célticas está associada às patentes ou feitios e heróis de guerra, o que Ogham também mostra e comprova por seus feitos em batalha.
             
O conhecimento, a nobreza, a dedicação, a lealdade, e a paciência são certamente características importantes dessa deidade, que geralmente é descrito como um homem de mais idade, carregando uma clava, com a língua para fora, de onde saem correntes que controlam os homens. Essa imagem, inicialmente grotesca, mostra o poder da fala e da eloquência, capaz de controlar os homens, para além da força bruta ou das aparências. Outra imagem sua é uma face ensolarada com a língua para fora, de onde também saem correntes, repetindo a associação, mas aqui trabalhando ele como iluminado.


Link da imagem
 Esse fato, nos lembra das Instruções de Cormac, que ensina sobre nobreza, condutas, lideranças e eloquência... Essas instruções foram dadas pelo rei Cormac ao seu filho e sucessor, Cairpre. Deixo a seguir o literal das Instruções de Cormac registrado por Bellouesus Isarnosno Bellodunon[1].
 

Tecosca Cormaic

Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

Do Leabhar Bhaile an Mhóta, “Livro de Ballymote”, RIA MS 23 P 12, 275 foll.

Ethne deu a Cormac um filho, seu primogênito, Cairpre, que foi rei de Ériu depois de Cormac. Foi durante a vida de Cormac que Cairpre subiu ao trono, pois ocorreu que, antes de morrer, Cormac foi ferido por uma lança e perdeu um dos olhos e era proibido que qualquer homem com um defeito fosse rei em Ériu. Assim, Cormac entregou o reino nas mãos de Cairpre, mas, antes de fazê-lo, transmitiu a seu filho toda a sabedoria que possuía no governo dos homens e isso foi anotado em um livro chamado As Instruções de Cormac. Estas palavras encontram-se entre seus ensinamentos:

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, quais são os deveres de um chefe numa taverna?
– Não é difícil dizer – disse Cormac.
– Bom comportamento em volta de um bom chefe,
Luzes para as lamparinas,
Esforçar-se pelo grupo,
Distribuição adequada de assentos,
Generosidade dos distribuidores,
Mão ágil ao servir,
Atendimento solícito,
Música com moderação,
Narrativas curtas,
Semblante jovial,
Amável saudação aos convidados,
Durante récitas, quietude,
Cantorias harmoniosas.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, quais teus costumes quando eras um rapaz?
– Não é difícil dizer – falou Cormac.
– Eu escutava nas florestas,
Fitavas as estrelas,
Era cego a respeito de segredos,
Silencioso nos ermos,
Palrador no meio da multidão.
Moderado no salão de festas,
Duro no combate,
Cortês para com os aliados,
Um médico para o enfermo,
Fraco para com o débil,
Forte para com o poderoso,
Não era íntimo para não me tornar inconveniente,
Não era arrogante, embora fosse instruído,
Conquanto capaz, não era dado a prometer,
Não era temerário, embora fosse rápido,
Conquanto fosse jovem, não zombava dos velhos,
Não era jactancioso, embora fosse bom lutador,
Não falaria de alguém em sua ausência,
A vituperar eu preferia exaltar,
A pedir eu preferia dar,
Pois é com tais costumes que os jovens tornam-se maduros e nobres guerreiros.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, qual é a pior coisa que tens visto?
– Não é difícil dizer: – falou Cormac – as faces de inimigos no tumulto da batalha.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, qual é a mais doce coisa que tens ouvido?
– Não é difícil dizer: – falou Cormac – o grito de triunfo depois da vitória, louvor depois dos esforços, o convite de uma dama para seu leito.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, que é o pior para o corpo de um homem?
– Não é difícil dizer: – falou Cormac – sentar-se por muito tempo, ficar muito tempo deitado, esforçar-se além das próprias forças, correr demais, saltar demais, cair muitas vezes, dormir com a perna por cima da grade da cama, olhar brasas acesas fixamente, cera, colostro de vaca, cerveja nova, carne de touro, comida azeda, comida seca, água do brejo, levantar-se muito cedo, frio, sol, fome, beber demais, comer demais, dormir demais, pecar demais, tristeza, subir uma elevação correndo, gritar contra o vento, secar-se ao fogo, o orvalho do verão, o orvalho do inverno, remexer cinzas, nadar de barriga cheia, dormir de barriga para cima, fazer brincadeiras idiotas.

– Ó Cormac, filho de Conn – disse Cairpre – quais são o pior pedido e a pior argumentação?
– Não é difícil dizer – falou Cormac.
– Combater contra o conhecimento,
Argumentar sem provas,
Escudar-se em linguagem imprópria,
Uma elocução tensa,
Falar resmungando,
Excesso de minúcias,
Provas duvidosas,
Desprezo aos livros,
Voltar-se contra os costumes,
Mudar o pedido,
Instigar a ralé,
Soprar a própria corneta,
Berrar a todo pulmão.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairpre -, quem são os piores com quem podes fazer uma comparação?
– Não é difícil dizer – falou Cormac.
– Um homem com o descaramento de um satirista,
Com a belicosidade de uma escrava,
Com a negligência de um cão,
Com a consciência de um patife,
Com a mão de um ladrão,
Com a força de um touro,
Com a respeitabilidade de um juiz,
Com saber engenhoso e perspicaz,
Com o discurso de um homem majestoso,
Com a memória de um historiador,
Com o comportamento de um abade,
Com o juramento de um ladrão de cavalos,
E sendo inteligente, mentiroso, grisalho, violento, blasfemo, falastrão, quando diz: “a questão está decidida, eu juro, jurarás também.”

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre – desejo saber como devo comportar-me entre os sábios e tolos, em meio aos amigos e estranhos, entre os jovens e os velhos, em meio aos inocentes e perversos.
– Não é difícil dizer – falou Cormac.
– Não sejas muito douto, não sejas muito néscio,
Não sejas muito presunçoso, não sejas muito acanhado,
Não sejas muito orgulhoso, não sejas muito humilde,
Não sejas muito falador, não sejas muito silencioso,
Não sejas muito rígido, não sejas muito débil.
Se fores muito douto, esperar-se-á muito de ti.
Se fores muito néscio, serás enganado.
Se fores muito orgulhoso, acreditar-te-ão molesto.
Se fores muito humilde, serás sem honra.
Se fores muito falador, não te darão atenção.
Se fores muito silencioso, não serás estimado.
Se fores muito rígido, serás quebrado.
Se fores muito débil, serás esmagado.

[Aqui terminam as Instruções de Cormac Ulfada, filho de Art, filho de Conn Cétchathach, filho de Óenlám Gaba, filho de Tuathal Techtmar, filho de Feradach Findfechtnach, filho de Crimthann Nia Nár, filho de Lugaid Riab nDerg, filho de Bres, Nár and Lothar, filhos de Eochaid Feidlech, filho de Find, Grande Rei de Ériu, que o filho de Art deu a seu primogênito, Cairpre Lifechair.]