quarta-feira, 30 de março de 2016

Os Caldeirões da Poesia

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Os Três Caldeirões da Poesia: o Caldeirão do Aquecimento, o Caldeirão do Movimento e o Caldeirão da Sabedoria.

Por Ávillys d’Avalon.

Para os celtas, os Coiri Filidechta (Caldeirões da Poesia) são parte componentes de todas as pessoas, e representam nossa missão terrena e espiritual nesse mundo.
            
Três são os Caldeirões que nos compõem: Coíre Goiriath (o Caldeirão do Aquecimento), Coíre Érmai (o Caldeirão do Movimento) e Coíre Sois (o Caldeirão da Sabedoria).

Coíre Goiriath fica localizado no ventre, ou na barriga, é o caldeirão que serve de receptáculo de Dán (nosso dom, destino, nossa canção ou poesia interior é o Dán que confere Brí ao indivíduo). Graças a esse caldeirão estamos vivos e atuantes. Ele nasce em todos os indivíduos virado para cima e cheio. Mantê-lo cheio e virado é o que nos mantém vivos, por isso está vinculado ao mundo físico e a nossa saúde.

Coíre Érmai fica localizado no peito, é o caldeirão que serve de receptáculo para o Brí (nossa essência, nosso vigor, nossa energia). Esse caldeirão está ligado a nossa missão terrena, aos nossos sentimentos, nossas sensações. É aquilo que devemos lidar e aprimorar. Afinal, Brí é um poder inerente que pode ser aprimorado ou atrofiado. Essa caldeirão nasce lateralmente, parcialmente preenchido por Brí. É nossa missão desvirá-lo para a posição correta e enchê-lo totalmente.

Coíre Sois fica localizado sobre a cabeça, é o receptáculo de Bua (nossa vitória, mérito, honra, dignidade e sabedoria). Esse caldeirão está ligado a evolução ou aprimoramento que devemos buscar alcançar. Ele representa nossa elevação humana e espiritual, nossa sabedoria muito mais que conhecimento. Bua pode ser ganhado ou perdido de acordo com nossas ações. Esse caldeirão nasce totalmente de cabeça para baixo e vazio, é nossa função desvirá-lo totalmente e enchê-lo.

Coíre Goiriath está, portanto, relacionado ao nosso físico primordial, o que nos forma como seres viventes desse mundo. Trabalhamos ele ao mantermos nossos ossos firmes, nossa carne sadia e forte e nosso cabelo e pele saudáveis e atuantes como antenas, como sensores. Ele nos confere nosso dom inicial, nosso poder pessoal, nossa força vital, nosso Dán; e fabrica nosso Brí, nossa energia. Esse caldeirão precisa ser mantido corretamente virado e cheio.

Coíre Érmai está relacionado ao nosso lado fluído, mas essencial a vida. Por isso é regido pelas nossas emoções e fala de nossa tarefa nesse mundo. Nos ensina que precisamos nos aprofundar em nossa sensação, em nosso eu interior, nas nossas emoções. Sua indicação como movimento é a ideia da fluidez das coisas. Precisamos manter nossa mente sã, nossas emoções compreendidas e não omitidas, e ter cuidado com o que absorvemos e enviamos. Esse caldeirão precisa ser colocado na posição certa e completado.

Coíre Sois está relacionado a nossa meta, nosso objetivo, nossa iluminação, por assim dizer. É a aquisição de sabedoria. Está relacionado com nossas decisões, nossa personalidade, nosso foco. É preciso entendermos mais sobre nós mesmos e desenvolver mais da capacidade que temos em todo o conjunto que chamamos de cabeça. Esse caldeirão precisa ser totalmente desvirado e enchido.

Se Coíre Goiriath está relacionado a Terra e a Calas, nos indica que sua manutenção também está relacionada a habilidades desse reino e elemento: solidez, estabilidade. E já nos fala daqueles que podem nos ajudar nisso: os sídhe (as fadas). Aprender com os sídhe que conhecem melhor essa existência do que nós mesmos, é ajudar-nos a manter o Caldeirão do Aquecimento, sempre cheio, pois disso depende o trabalho dos demais caldeirões. Esse caldeirão é repleto de Dán, que é nosso dom, nosso destino e força vital. Aceitar quem somos e nossa missão é parte indispensável para manter Dán produzindo Brí, que encherá o próximo caldeirão.

Já Coíre Érmai está relacionado ao Mar e a Gwyar, nos fala que sua manutenção está relacionada ao reino e elemento Mar: fluidez, movimento, emoções. E quem poderia nos ajudar nesse processo são os Ancestrais. Nossos antepassados que deixam conosco uma carga enorme de experiência e aprendizado em vida, que devemos aprender e recorrer a eles para lidar com nossas emoções. Dar voz a experiência e busca-la sempre e também buscar o afeto, o carinho que nos liga com os que já se foram. Contudo, precisamos que Coíre Goiriath esteja cheio, e corretamente posicionado para que, com nosso trabalho e desenvolvimento, do Caldeirão do Movimento possa acontecer. É nosso dever desvirar esse caldeirão e preenche-lo com Brí. Enchido com Brí, começar-se-á a produzir Bua, nossa honra, sabedoria e dignidade. Que será indispensável ao próximo caldeirão.

O Coíre Sois, por sua vez, está relacionado ao Céu e a Nwyfre, e sua manutenção está relacionado a esse reino e elemento: através da inspiração e condução. Nossos ajudantes nesse processo são os Deuses, que são nossos grandes mestres e mentores, nos inspirando e conduzindo pela vida. Entretanto, para começarmos a trabalhar esse caldeirão, é preciso manter os dois outros alinhados, e totalmente preenchidos por Dán e Brí, para que Bua comece a ser produzido. Mas não adianta apenas produzir Bua, é nossa função ainda antes desvirar totalmente esse caldeirão para que ele possa ser um receptáculo de Bua. A mensagem que nos fica é simples e direta: De que nos adianta honra e sabedoria se não aceitamos quem somos, se não usamos nosso movimento (emoções) em prol de nosso destino e personalidade. Onde colocaremos a honra sem autocontrole e auto aceitação? Por fim, quando os três caldeirões estiverem totalmente desvirados e preenchidos, teremos alcançado nossa evolução e iluminação. Entendido de fato quem somos e compreendido o mundo a que vivemos.

Essa difícil tarefa não é creditada a uma só vida. Os celtas acreditavam que era preciso várias vidas para atingir esse alinhamento final. Contudo, sabemos que podemos buscar manter Coíre Goiriath e podemos trabalhar (desvirar e encher) Coire Érmai, para que comecemos a trabalhar e a girar essa engrenagem que alinha todos os Caldeirões. Mas uma coisa há de ser sabida: assim como é possível encher os caldeirões, é possível perder seus conteúdos. Um caldeirão que não é trabalhado ou mantido, pode também voltar a virar cada vez mais de cabeça para baixo. Se isso acontece com Coíre Érmai, cairíamos numa situação de depressão. Se isso acontece com Coíre Goiriath, minguaríamos nossa vida em doenças ou culminaria em nossa morte física. Já Coíre Sois, está totalmente de cabeça para baixo, para nos lembrar que não sabemos absolutamente nada desse mundo sem antes sabermos de nós mesmos, mas mantê-lo desvirado é cair em consentimento com uma vida de ignorância.


Coíre Sois
Cabeça
Receptáculo de Bua
(honra e sabedoria)
/\
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|
Coíre Érmai
Peito
Receptáculo de Brí
(energia e emoções)
/\
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Coíre Goiriath
Ventre / barriga
Receptáculo de Dán
(saúde e destino)


Sugestões de leituras:

Seneween, Rowena A. O que são os 30 dias druídicos In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=51>.

___________________. Meditação dos Três Caldeirões In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em:  <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=45>. 


Referências:

Isarnos, Bellouesus. Dán In Bellodunon [S. I.]. Disponível em: <http://bellodunon.com/2013/03/04/dan/>. 

_____________________. Moí Coire Coir Goiriath In Bellodunon [S. I.]. Disponível em: <http://bellodunon.com/category/amergin/>.

_____________________. Muitgheal In Bellodunon [S. I.]. Disponível em: <http://bellodunon.com/2014/04/15/muirgheal/>. 

_____________________. Três Caldeirões In Bellodunon [S. I.]. Disponível em: <http://bellodunon.com/2013/03/11/tres-caldeiroes/>.  

Endovelicon. A Jornada de Máel Dúin IN Ramo de Carvalho [S. I.]. Disponível em: <http://www.ramodecarvalho.com.br/mitologia/mitologia-gaelica/a-jornada-de-mael-duin/>, acessado em 18 de agosto de 2015.

__________. Usando as Emoções para mover os Caldeirões [palestra] In VI EBDRC. Circulação interna. Curitiba, 2015.

Endovelicon & Seneween, Roweena A. V EBDRC - Aquecendo os Caldeirões In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=163&keywords=Os+Tr%EAs+Caldeir%F5es>. 

Schleichuberti, João Eduardo. Elementos Místicos do Druidismo e sua interconexão e uso prático [palestra] In VI EBDRC. Circulação interna. Curitiba, 2015.

Seneween, Rowena A. 2º Dia: Cosmologia In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?

_________________. 4º Dia: Três Reinos In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=55>.

Os Três Povos

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Os Três Povos representados em torno da Árvore do Mundo

Por Ávillys d’Avalon.

Três povos sobrenaturais habitam o mundo. Os Deuses, os sídhe (as fadas), e os ancestrais. Esses são povos com quem compartilhamos esse Mundo, mas que, geralmente, não vivem nas mesmas terras que nós. Pertencem a outros reinos. Contudo, eles podem, e muitas vezes o fazem, interagir em nossas terras. Acredita-se que um véu separe nossas terras das terras sobrenaturais (também popularmente chamada de “Outro Mundo”[1]). Esse véu é a própria bruma que cobre as vezes nosso mundo. Viajar através das brumas é sempre um risco de atravessar o véu e ir parar em outros mundos, em outras ilhas e terras, sobrenaturais. Além das brumas, é possível que portais existam, se abram e se fechem, em vários lugares do mundo, conduzindo os viajantes e transeuntes para outros mundos, ainda pertencentes ao nosso próprio Universo (Mundo).
            
Essa viagem a outras terras e mundos era algo que os celtas acreditavam poder fazer também fisicamente, viajando pelo Oeste, rumo às brumas, ou atravessando portais. Mas era sempre arriscado. As outras terras e seus habitantes podem ser hostis ou perversos e podem facilmente ludibriar os seres humanos, uma vez que o tempo não passa da mesma forma nos mundos. Assim, um viajante poderia passar dias no outro mundo sendo que se passou anos nesse mundo. As lendas celtas são cheias desses casos e lembretes para se tomar cuidado. Ao perceber que não está em sua terra, a recomendação é regressar o mais rápido possível.
            
Contudo, acredita-se que pela corrupção do coração humano e pela baixa de sua espiritualidade, as passagens que ligam os mundos está cada vez mais densa e mais difícil de ser acessada. Distanciando as terras entre si, impedindo a passagem humana para outras terras e dificultando a passagem dos Povos a esse mundo também.

Cinco são as ilhas, ou terras do além véu: Tír fo Thuinn, a Terra sob as Ondas, governada pelo Deus Mananann, lar dos ancestrais. Tír na mBan, Terra das Mulheres, onde a vida é gerada. Tír na mBéo, a Terra dos Vivos ou Imortais, lar dos Deuses. Tír na nÓg, o Faery, ou Terra da Juventude, lar dos sídhe (das fadas). E o Tír Tairngire, a Terra da Promessa, o último lar de nossa jornada. É possível que naveguemos espiritualmente e fisicamente a essas terras, e acredita-se que elas mostrem uma jornada espiritual a ser seguida, rumo a Terra da Promessa.


Os ancestrais:

Os ancestrais são as almas, espíritos e energias dos antigos, dos antepassados e também dos vivos (nossos pais, avós são também nossos ancestrais). Desde os ancestrais de sangue, até os ancestrais da terra ou mesmo do mundo. Os celtas acreditam na reencarnação. Acreditam que você tem a escolha de retornar a esse mundo para aprender mais e você escolhe a linha e o aprendizado que irá obter. Por essa razão, não era surreal que um celta marcasse o pagamento de suas dívidas para vidas posteriores. O que nos soa calote, é totalmente aceitável na cosmologia celta.
            
O culto e às honras aos ancestrais era algo forte na cultura celta. O festival de Samhain era também a eles dedicados. É nossos ancestrais que abriram e nos apontaram o caminho a seguir. Eles nos deram a tradição e os ensinamentos. Harmonizar-se com eles é manter a honra de uma família, de um povo e de uma terra. E a honra é o que um homem pode carregar e possuir de mais sagrado.
            
Para explicar melhor sobre os ancestrais, usarei um texto de Roweena A. Seneween, retirado na íntegra do site Templo de Avalon.

A ligação com as raízes ancestrais nos dão força para crescer e amadurecer. Ancestral ou antepassado é uma relação muito mais abrangente que vai além dos nossos queridos avôs que, talvez, já tenham feito a passagem para o Outro Mundo; é a nossa linhagem espiritual e os Deuses, os Ancestrais primordiais. 
Ancestrais eu vos saúdo,
Da raiz à frondosa copa das árvores,
Sua essência habitará eternamente dentro de nós.
Podemos dizer que os ancestrais vão desde os antepassados mais próximos, ou seja, as linhagens diretas das nossas quatro famílias consanguíneas: avôs maternos e avôs paternos, e assim por diante - que no Druidismo chamamos de Ancestrais de Sangue, até a herança nativa, daqueles que habitaram a terra antes de nós - chamados de Ancestrais da Terra. E, por fim, a afinidade celta que representa a tradição dos costumes e das lendas de um povo que nos liga o passado ao presente - os Ancestrais da Tradição. 
Ancestrais eu vos saúdo,
Dos passos firmes e fortes sob a terra,
Daqueles que caminharam neste solo antes de nós.
Na visão que o universo se expande em espiral com suas múltiplas escolhas, por meio da migração das almas, podemos ser até nossos próprios ancestrais. Relembrando e vivenciando uma cultura tão antiga e ao mesmo tempo tão atual, através de alguns dos seus princípios como a honra, a verdade e a lealdade. 

Ancestrais eu vos saúdo,
Da essência vivida na alma e no coração,
Tribos celtas que circulam em espiral entre nós.

Portanto, ao nos lembrarmos dos antepassados, durante nossos ritos, estaremos conservando todo um patrimônio cultural, herdado de uma conexão ancestral, proporcionando assim, uma relação de reciprocidade de sentimentos de amor e amizade em todos os seus descendentes. 
Ancestrais eu vos agradeço,
Pelo manto invisível que nos protege,
Da jornada às águas profundas e que renascem em nós.
"Os mortos não estão longe, pelo contrário, estão muito, mas muito mais perto do que se imagina. É um encontro com as profundezas do "self" mais oculto da natureza. É uma viagem em direção a novos horizontes. Num certo sentido, estamos sempre à espera do grande momento da colheita ou do retorno às raízes, que sempre nos assombra com uma profunda sensação de ausência. A estreita faixa de claridade que chamamos de "vida" se estende a escuridão do desconhecido rumo à morada dos ancestrais. Gosto de pensar na morte como um renascimento. A alma é livre, em um mundo onde não há separação, sombra ou lágrimas, somente reencontros." (John O'Donohue apud Roweena A. Seneween)


Os Sídhe (as fadas):

As fadas são seres intrigantes que aparecem de forma repaginada várias vezes em várias mitologias. Eu particularmente adotarei as fadas como sinônimo do termo grego “Elemental”, seres (e não espíritos) mágicos ligados a natureza e que muitas vezes vivem no Outro Mundo ou em trânsito constante a esses mundos.

Ao contrário do que os contos recentes descrevem, as fadas não são apenas seres alados, pequenos que cuidam da natureza. De acordo com a origem do termo, em inglês, Faery People, “O Povo das Fadas” ou o “Povo do Faery”. Essa categoria é uma categoria generalizadora que engloba uma porção de seres catalogados, e outros ainda não catalogados, que costumamos chamar de “seres mágicos”. Assim, as fadas são todos os seres mágicos que vivem em diálogo com nosso mundo: silfos (os alados), gnomos, duendes, dragões, salamandras, e uma porção de outros catalogados e muitos que ainda não foram catalogados por nós.

O “Faery” pode se referir ao “País das Fadas”, uma terra pertencente a nossa realidade, mas separada de nossa esfera por um véu mágico que separam os mundos. Também é conhecida pelos celtas como Tír na nÓg. Esse outro mundo é tangente ao nosso, o que significa que vivemos em realidades sincrônicas, o que acontece em um abala o que acontece no outro e é assim que as fadas tem o poder de moldar nosso mundo. Contudo a passagem de um para o outro nunca foi descrita como simples ou fácil, mas um fato a ser dito é que as fadas as dominam.

Apesar dos contos modernos, as fadas não são – e nem devem ser vistas dessa forma – seres mágicos puramente bons, dóceis e fofinhos. Pelo contrário. As mitologias mais antigas nos contam que são um povo bem arredio, tímido e muitas vezes perversos quando se sentem perturbados, ou envergonhados. Contudo, é possível fazer amizades e trabalhar em conjunto com as fadas quando as entendemos bem.
            
Assim como nós, as fadas têm seu lado obscuro. Esse lado está vinculado em primeiro às lendas que contam que as fadas, quando envergonhadas ou ofendidas, atacam com maldições e as vezes até de forma letal aquele a quem elas consideram seus agressores, seja tirando suas posses, sua visão, causando loucuras ou mesmo levando a morte. As vezes punindo diretamente, outras através de intermediários. Outro fator que comprova esse lado obscuro é o senso de humor sombrio ou negro das fadas, que muitas vezes se divertem com o mal feito ou com as vergonhas humanas, por isso elas são associadas às travessuras da noite de Halloween. A esse humor travesso e punitivo, também se associa a chamada “possessão de fada” que se remete a influência direta, possessiva de uma fada sobre alguma pessoa, fazendo-a realizar grandes feitos e prodígios, ou fazerem coisas humilhantes ou mesmo enlouquecendo-a. No primeiro caso, é costume que a pessoa não se recorde de absolutamente nada do ocorrido após o término da possessão. Outro fator que contribui é a presença de várias lendas que descrevem as fadas raptando seres humanos, em sua maioria bebês e crianças para o seu mundo – não com o intuito de fazer mal a criança, mas de criá-las. Essas lendas encontram subsistência na hipótese de que as fadas não poderiam amamentar seus próprios filhos e, por isso, pegariam filhos humanos para criá-los, muitas vezes deixando seus filhos para que os humanos o criassem.

Os changelings (os trocados) são geralmente filhos de fadas criados como humanos, ou humanos criados como filhos de fada. Para reconhecer os primeiros, precisaremos nos remeter a sua infância. As lendas contam que os filhos de fadas quando criados por humanos são pessoas que durante a sua infância são verdadeiras pestes ambulantes, crianças insuportáveis, muitas vezes mal-educadas, travessas e impossíveis. Mais tarde quando a adulta, os dons de fada dessa criança podem começar a atuar e ela pode encontrar extrema facilidade em acessar o Outro Mundo, ou mesmo em saber de coisas que teoricamente ela não deveria saber. A pergunta que vem em seguida é como isso é possível? Uma criança fada ser criada como humana, e sua aparência? As lendas também respondem isso. Uma fada tem a habilidade da metamorfose e por isso, pode estar entre nós sem ser percebida ou reconhecida fisicamente, bem como, quando desenvolve essa habilidade, pode mudar de formas de acordo com sua vontade e necessidade.

Enfim, esse lado obscuro das fadas nos remetem a ideia de cuidado e respeito. Sabemos que são um povo que gosta de privacidade, liberdade, não gostam de espiões nem de intrusos em seus territórios. Assim sendo, são bem tímidas, impulsivas, arredias, travessas e perigosas. É preciso cautela e muito respeito e ponderação ao lidar com elas. Elas punem ao simples fato de se sentirem ameaçadas, e não costumam ter dó.

Contudo, elas também tem o outro lado, o lado benevolente e muito ligado a música (uma de suas dádivas). Elas ajudam àqueles a quem elas se simpatizam ou que demonstram respeito e benevolência para com elas. E podem ser grandes aliadas. Afinal, a elas são dadas mitologicamente o poder sobre o destino e andamento das coisas, principalmente aquelas que envolvem maturação ou sorte. Conquistar uma fada, ter seu auxílio e respeito é sempre algo muito nobre e honrado. Mas em troca você também deverá sempre agradá-las e manter a reciprocidade de “bom vizinho”, e entender suas impulsividades e genialidade difícil. Entretanto, nunca deixe-as sentir que você está sendo caridoso em “pagamento” a um serviço que elas lhe tenham prestado ou prestarão. Elas não são serviçais e detestam se sentir assim, e isso provavelmente as fariam mostrar seu pior lado.

Lidar com as fadas não é tarefa fácil, nem algo que se resolva com oferendas. É preciso que elas sintam confiança em suas intenções para se soltarem e mostrarem seus melhores lados, mas uma vez que isso ocorra, a parceria está feita e a simbiose passa a ser algo cotidiano, a qual não se pode descuidar. É recompensador, mas dá trabalho e leva tempo. Isso não significa que você não possa fazer agrados e mostrar seu respeito em horas e datas festivas, mas tenha sempre ciência de quem são as fadas e para além disso, no perigo e no privilégio de mexer com elas. Se você for um bom vizinho em quem elas sintam confiança, além de serem suas maiores e melhores aliadas, te ensinaram saberes preciosos que só elas possuem. Mas lembre-se, é sempre uma simbiose: uma mútua e continua troca, respeitosa e não comerciável.

Os celtas chamavam as fadas de sídh (singular, sidhe, plural). Mas essa palavra nos fala mais de seu local, de suas moradas, ou dos portais até elas nesse mundo, do que das próprias fadas. Sídh, a primeiro momento, significa “colina”, e assim as fadas seriam Daoine Sídh, povo da colina. Contudo o termo pode ser mais amplo, e abrigar lugares sagrados onde as fadas vivem como colinas sagradas, cemitérios, árvores solitárias, círculos naturais (clareiras, círculos de pedras anteriores a chegada de um povo, círculo de cogumelos, enfim qualquer formação circular encontrada na natureza), túmulos antigos, templos, cachoeiras e nascentes, dentre outros. Cabe ressaltar que as fadas não são Deuses, mas em alguns casos podem ser tão poderosos quanto eles. Assim sendo, as lendas nos mostram que o desrespeito às moradas das fadas são sempre rapidamente punidos por elas. Em alguns países como Irlanda, ainda hoje é costume desviar estradas e construções para não destruir árvores ou lugares onde lendas contam da existência das fadas ali.

Isso nos remete uma segunda importância, a atenção ao entrar em lugares antigos e, principalmente naturais, devemos ser cautelosos sempre, pedir sempre permissão, e adentrar ao espaço com respeito e honra, nunca se sabe se ali é um sídh e se for, a última coisa que queremos é a vingança de uma fada por desrespeito ao seu espaço.

Uma coisa ainda nos resta falar. Falamos que elas podem ser agressivas e travessas, além de ter um humor negro e abduzirem pessoas e crianças (as vezes objetos e comidas). Alguma forma deve haver de proteção... E há! As lendas descrevem que as fadas não tem tolerância ao metal, sobretudo a prata. Assim sendo, objetos metálicos ou de prata podem servir de amuleto contra as influências ou ataques de uma fada, outro método bom é portar sempre um pouco de aveia consigo, as fadas não só não digerem aveia como não se aproximam quando a sentem por perto; erva-de-são-joão também é usada na proteção contra abdução pelas fadas; era habitual vestir crianças como adultos ou tampar seus rostos com máscaras e panos em noites e dias em que a proximidade com as fadas era maior (disfarçadas as crianças teriam menos chance de serem abduzidas). Contudo, o velho respeito e precaução são sempre as melhores proteções a meu ver. Além de te manterem seguro, ainda te possibilita criar um elo positivo com esses seres. Assim, além das dicas de “bom vizinho” descritas acima, os eufemismos dirigidos às fadas ajudam muito: “povo nobre”, “bom povo”, “os bons vizinhos”. Outros costumes importantes é que, nas noites em que o véu está mais tênue (Lua Azul e Samhain / Halloween) é costume avisar as fadas sempre que vai esvaziar um recipiente de água ou jogar algo no chão e afins, para evitar que as acerte e cative seu desejo de vingança...

Por fim, ao falar de fadas também falamos dos Espíritos Guardiões. Esses são seres ou espíritos mágicos – muitos deles são fadas – que guardam lugares e espaços. Acredita-se que todo local, principalmente natural ou sagrado, tenha o seu. Assim como as fadas, de seu humor e respeito dependem a (boa) estadia da pessoa naquele local. Muitas vezes, mais de um espírito podem habitar ou guardar um determinado lugar, mas eles sempre estão de olho e nada os escapa. Por isso, era um costume comum dos celtas também cultuá-los e criar sempre laços respeitosos com eles, de onde, quantos e como quer que eles fossem. Assim sendo, a dica é: nunca entre em algum território (mesmo um seu habitual) sem prestar respeito e honras ao guardião do local, bem como sem pedir sua permissão. Principalmente se esse local é sagrado, natural e/ou desconhecido. Você depende do humor, boa vontade e acolhimento desse espírito para ter uma boa e saudável estada, onde quer que seja; ou para manter um local sagrado seguro e apto para seu uso.



Os Deuses:

Os celtas eram politeístas. Cada tribo, reino, nação tinha seu próprio panteão e não havia uma visão de um Deus ou Deusa únicos que fundissem ou unissem todos os demais Deuses como arquétipos de sua unicidade. Igualmente, não era comum que uma tribo cultuasse aos Deuses de outra tribo. Respeitava-se o panteão local conforme a tradição e os ensinamentos (passados de boa a orelha). Haviam apenas cinco Deuses celtas que historicamente estão presente em todas as tribos e nações, chamados de Deuses pan-céticos: Danann, Dagda, Morrigan, Lugh e Brigit.
            
Contudo, nos dias de hoje, com o recomeço do paganismo e a globalização, é comum que alguns grupo optem por aderir o culto a Deuses de diferentes panteões celtas, prática realizada a partir de estudo e de forma honrosa e respeitosa. Mas também há grupos que optam por seguir de maneira histórica e assim cultuar apenas os Deuses da tribo ou nação que segue. Particularmente acredito que ambas as práticas são coerentes, desde que feitas com sinceridade, estudo, respeito e honra.
            
Os Deuses eram cultuados como mestres divinos e seres de sabedoria e poder que excedem incontáveis vezes às humanas. Viviam em terras do Outro Mundo, mas podiam transitar, partilhar e até viver em nossas terras. Suas formas de atuação nesse mundo eram através das forças da natureza e de seus animais totêmicos. Acredita-se que os Deuses podem se transformar nas forças da natureza ou em animais para atuar e viver nesse mundo.
            
A visão celta dos Deuses é descrita de maneira profundamente humanizada. Nossos sábios mestres possuem humores, desejos, se ferem, festejam, sentem dor, ira e prazer. E muito disso ainda nos é passado nos mitos e lendas que chegaram até nós, nos quais os Deuses são descritos com características perfeitamente humanas, vivendo em seu convívio nessa ou em outras terras e, muitas vezes, são aclamados como heróis. O exemplo disso está nas lendas dos Tuatha dé Danann e na conquista de Ériu (Irlanda), onde a tribo da Deusa Danann é conduzida, comandada e governada não apenas por heróis nobres, mas pelos próprios Deuses que fizeram ali sua morada. Isso não é tão surreal se lembrarmos que o véu difere terras e mundos que pertencem fisicamente ao nosso próprio Mundo (Universo), assim o trânsito, inclusive físico, não é algo absurdo. Contudo, com o véu se solidificando, cada vez menos os Deuses vem habitar entre os humanos e cada vez mais nos distanciamos de suas graças, honras e heroísmos.
            
O contato com os Deuses é feito de maneira honrosa e amigável. É possível conversar e indagar as coisas aos Deuses, desde que de forma respeitável, você terá sua resposta e auxílio, basta se atentar aos sinais a sua volta. Outra forma de contatar os Deuses é através de oráculos e vidências. Os Deuses falam e nosso íntimo, o essencial é aprender a ouvir sua voz. A relação honrosa e o culto aos Deuses é uma forma de agradecimento e de estreitamento de laços. Honrar e cultuar os Deuses é uma forma bela e saudável de dizer o nosso “muito grato” a eles. Devemos lembrar que eles controlam nosso destino e o destino de toda existência terrena. São os seres superiores de nosso Mundo, criaturas da Grande Canção, mas também aqueles que zelam e escutam seu tocar.
            
Os Deuses não são autocráticos, mas zeladores do Mundo, mantenedores do equilíbrio universal que permite a existência e a vida. Awen arde intensamente nos Deuses, e através deles nos aproximamos ainda mais de Awen e do Oran Mor. E estar a seu serviço é aprender e adquirir honra e sabedoria, servindo ao equilíbrio.
            
Entre os povos celtas, contam-se mais de cento e cinquenta Deuses. Por essa razão, não dedicarei uma fala sobre cada um deles no momento. O que nos importa dizer é que os Deuses celtas são pré-cristãos, existem e eram cultuado muito antes da datação de Jesus ou da cristianização da Europa. Muitos desses Deuses foram canonizados pela Igreja Católica – como o caso de Brigit que virou Santa Brígida (padroeira da Irlanda –; outros, ao contrário, foram demonizados – como o caso de Cernunnos, cuja forma hibrida de natureza, animal e humana está na base da forma do diabo medieval. Apesar desse triste fato, os Deuses celtas nada têm a ver com os demônios cristãos. Não há culto ao diabo ou a qualquer secto a ele relativo entre as práticas e cultos celtas. Assim como a maioria dos grupos celtas de hoje não cultuam os elementos da cristandade ou o Cristo. Um aprendizado que um culto politeístico semeia é o do respeito a diversidade, não há apenas um caminho possível, há múltiplas verdades e todas são igualmente verdadeira. Dessa forma, o respeito e a honra estão na base do culto, assim como a busca pelo equilíbrio mais do que a noção clássica de “bem contra o mal”. Concomitante, respeitamos, e muitas vezes nos relacionamos intimamente com, a visão wiccana da Deusa (ou Deusa e Deus), mas essa também não é a visão celta sobre as divindades, por mais bases célticas que a Wicca tenha.



Sugestões de leituras:

Seneween, Rowena A. O que são os 30 dias druídicos In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=51>.



Referências:


Avalon, Ávillys. Os Sídhe (as fadas) In Mundi Tempus [S. I.] Disponível em: <http://munditempus.blogspot.com.br/2015/06/as-fadas-os-sidhe.html>. 

Black, Lady Mirian. O Outro Mundo [Capítulo 21] In Bruxas. São Paulo: Ícone Editora, 2012, pp. 115-125.

Corr, Rafael. Os Sídhe [palestra] In VI EBDRC. Circulação interna. Curitiba, 2015.

Seneween, Rowena A. 2º Dia: Cosmologia In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?

_________________. 4º Dia: Três Reinos In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=55>.

_________________. 8º Dia: Divindades e Crenças In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=59>. 

_________________. 9º Dia: Ancestrais In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=60>.




[1] Cuidado para não se confundir com os Mundos Universais, os Três Mundos Acima, ao Meio e Abaixo, dos quais partilhamos a Terra Média ou Mundo do Meio. As palavras usadas para ambas as referências são as mesmas, mas são referências distintas. Tudo o que temos conhecimento e contato, inclusive o Outro Mundo, faz parte da Terra Média.


terça-feira, 29 de março de 2016

Os Três Elementos e Awen (ou Imbas)

Link
Costa Oeste da Irlanda

Por Ávillys d’Avalon.

Diferente da concepção grega comum nos dias de hoje sobre os Elementos da Natureza, os celtas alegavam a existência de três elementos naturais: Nwyfre, Calas e Gwyar, respectivamente sopro / vento, terra e mar / água. O fogo então se torna a representação e materialização de Awen (ou Imbas). Uma razão para esse fato é de que o fogo transmuta, transforma e conduz os outros três elementos, assim sendo ele é muito mais que um elemento, mas a manifestação do fogo divino primordial: Awen.
            
O primeiro elemento é Nwyfre, o sopro, o vento. Nwyfre é o elemento celestial, é o Ar. A ele se relacionam às coisas do Reino do Céu. Dessa forma, as coisas regidas por Nwyfre se nutrem da inspiração e dos dons divinos. É o elemento responsável pelo sopro de vida e pela manutenção da vida.
            
O segundo elemento é Calas, a terra. Calas é o elemento terreno, é a própria Terra onde se pisa. A ele se relacionam as coisas do Reino da Terra. As coisas regidas por Calas tendem a ser firmes, sólidas, buscam e proporcionam sempre sustentação. É o elemento responsável por da base e sustento a tudo.
            
O terceiro elemento é Gwyar, o mar, as águas. Gwyar é o elemento marítimo, é a Água. A ele está relacionado a condução, os sentimentos e emoções e as jornadas. É o elemento portal que possibilita o acesso e a viagem a outras terras (inclusive as divinas). Também é o elemento que traz a intermediação, pois o mar não é tão sólido quanto a terra e nem ar como o vento. É o elemento responsável pelas emoções e pelas jornadas.
            
Há um pouco de cada elemento em todas as coisas, mas essencialmente, cada pessoa, cada ser, cada coisa é predominada por um ou outro elemento (independente do elemento astrológico de regência). Reconhecer seu elemento e trabalha-lo é uma necessidade primordial como maneira de afinar-se no mundo e entender seu papel nele.
            
Pessoas de elemento Nwyfre são mais dadas a inspiração, buscam suas práticas do coração e não dos estudos que fazem. Confiam cegamente em sua intuição e no seu eu interior para tudo. Se mostram mais voláteis a mudanças e a tomadas de decisão e tendem a ser bem imediatistas em suas reações.
            
Já pessoas de elemento Calas são muito centradas, coesas e dedicadas aos estudos. Estudam muito e analisam muito algo antes de praticar e só tomam suas decisões após muito tempo de análise. Costumam ponderar de mais as coisas antes de atestar sua confiança ou posicionamento. São muito estáveis em suas decisões e no que querem da vida e não costumam demonstrar sempre o que sentem ou pensam. Costumam ser mais analisadoras e introspectivas.

Por fim, pessoas de elemento Gwyar atuam no meio termo. Ao mesmo tempo que pesquisam e estudam suas ações e práticas, também ouvem sua intuição e modelam as práticas de acordo a conciliar as duas coisas: nem só estudo, nem só intuição. Igualmente são voláteis e estáveis e passíveis a mudanças de humor. São facilmente conduzidas por pessoas que demonstrem mais sabedoria, mas igualmente conduz aqueles que buscam aprender com ela. Costumam ser pessoas sentimentais ou emotivas.
            
É necessário que reconheça e trabalhe seu elemento a fim de melhor afinar sua relação consigo mesmo no trato de magia. Mas, acima de tudo, é necessário que se atente aos perigos: a volatilidade do ar, o emocional da água, e o excesso de centralidade da terra. Trabalhar os elementos é entender que tudo está conectado e nesse passo, é preciso que também se conecte e aceite as influências dos demais elementos para aprimorar e melhorar que você é.
            
Conduzindo os três elementos está Awen (gaulês) ou Imbas (irlandês), a conexão sagrada de tudo. Awen é o fogo sagrado que queima na frente da Árvore do Mundo. É a mais pura magia e a conexão sagrada com todas as coisas. É o fogo que queima na testa dos artistas, é a inspiração sagrada que guia os Druidas. É a magia primordial e de onde toda magia e toda a vida vem. Awen é o Fogo.
            
E o fogo transmuta a terra, transforma a água, conduz e consome o ar. Ou seja, o fogo é aquele que transmuta a existência, transforma os sentimentos e os purifica, e absorve o divino, alimentando-se dele. Por essa razão, todo fogo é a expressão e a manifestação de Awen.

Alcançar Awen, seria como alcançar o Nirvana, é a meta de todo druida. Mas é algo gradual. O estágio de conexão e comunhão com Awen possibilita o transe e a transcendência espiritual também como manifestação corpórea, possibilitando que a pessoa transcenda sua existência, conectando-se com tudo e se aprofundando em mistérios muito além do mencionável. A conexão com Awen transcende a espiritualidade.




Oração de evocação dos elementos:

“Eu respiro Nwyfre e por ele sou conduzido(a).
A força e inspiração dos Deuses estão comigo.
Eu ando sobre Calas e por ela sou sustentado(a).
Eu tenho comigo a alegria das fadas.
Gwyar me rodeia e me preenche,
Através dele eu faço minha jornada.
Awen é meu espírito,
E com ele também sou sagrado(a) nessa morada.”



Música indicada para meditação com Awen, clique aqui.



Sugestões de leituras:

Seneween, Rowena A. O que são os 30 dias druídicos In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=51>.


Referências:

Schleichuberti, João Eduardo. Elementos Místicos do Druidismo e sua interconexão e uso prático [palestra] In VI EBDRC. Circulação interna. Curitiba, 2015.

Seneween, Rowena A. 2º Dia: Cosmologia In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?

_________________. 4º Dia: Três Reinos In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=55>.

_________________. 13º Dia: Inspiração In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=64>. 

Ybyraptã, Ëldrich Hazel. Awen e a Tradição Oral dos Druidas In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/articles/article.php?id=117>. 



domingo, 27 de março de 2016

Os Três Reinos

Link
Triskle (ao centro a Triketa), representação dos Três Reinos na cultura celta. Em sentido horário usado para expansão, em sentido anti-horário usado para proteção.

Por Ávillys d’Avalon.

“Neamh nglas, muir más, talamh cé.”
“Céu azul, belo Mar, Terra presente.”
(Invocação de Blathmac mac Cú Brettan)

Para os celtas Três Reinos compõem a existência da Terra Média. A Terra Média, ou Mundo Intermediário é parte da concepção cosmológica celta, que acredita haver três Mundos (um acima, um ao meio e um abaixo) – nós poderíamos hoje dizer três universos. Nós e tudo o que conhecemos, sentimos e sabemos vivemos no Mundo do meio, ou Mundo Intermediário ou Terra Média.

O alcance aos outros Mundos nos é vetado e tudo o que temos conhecimento está fisicamente locado na Terra Média: Deuses, fadas, ancestrais, outras terras... E tudo isso pode ser alcançado fisicamente por quem souber navegar para o Oeste ou tiver a “sorte” de atravessar um portal.

A Terra Média possui então Três Reinos: o Céu sobre nossas cabeças, a Terra sob nossos pés, e o Mar que nos rodeia. E assim, tudo o que existe, pertence a um dos reinos.[1] Não nos é difícil entender porque dessa relação muito presente sobretudo nos celtas irlandeses: a Irlanda é uma ilha com um céu sobre ela, uma terra firme para pisar e um gigantesco mar circundante. Mas se formos parar para pensar, tudo o que existe não é assim? Não seria o espaço sideral uma prorrogação de nosso circundante mar nos conduzindo a outras terras (deferentes da nossa mas igual em existência)?

Desse modo, o Céu é o Reino de Nwyfre, do Ar, Reino dos Deuses e dos animais que voam e planam. É do Céu que vem a inspiração e o contato com os Deuses. Ele é o nosso Reino Acima.

A Terra é o Reino de Calas, da Terra, Reino dos Espíritos da Natureza (as fadas que vivem entre nós), dos homens e dos animais que andam e rastejam. É da Terra que vem a sustentação, e o caminho para o desenvolvimento. Ele é nosso Reino do Meio.

O Mar é o Reino de Gwyar, do Mar (das águas), Reino dos Ancestrais e das fadas (as que não vivem entre nós), dos animais que nadam e mergulham. É do Mar que vem as provações, a condução e os sentimentos. Ele é nosso Reino Abaixo e ao Redor.
            
No centro do Mundo encontra-se então a Árvore do Mundo, aquela que conecta e mantém os Três Reinos. Para os celtas essa árvore é um freixo com galhos altivos que alcançam os céus, tronco firme que sustenta a terra e raízes profundas que alcançam o mar (as águas). Na sua frente queima a Awen (ou Imbas), o fogo sagrado.

“Que o céu caia e me esmague, que o mar se erga e me afogue, que a terra se abra e me engula se eu quebrar esse juramento.”
(juramento irlandês)

E eis um juramento muito respeitado e de grande poder entre os celtas irlandeses. Seu maior temor era exatamente esse cenário apocalíptico em que o desequilíbrio (talvez o fim da Árvore do Mundo) levasse ao caos entre os reinos, fazendo o Céu cair, o Mar invadir a Terra e a Terra se abrir.


“Não sei qual o meu destino.
Viajo para muito longe das ondas.
Procuro minha alma, onde ela está?
Eu olho a estrela para me guiar de volta.

Há uma ilha no oeste,
Terra sob o Céu e sobre o Mar,
Viajo para muito longe em minha busca.
Procuro um guia para me conduzir.

Um ramo de prata em minha mão
Com flor de cristal e fruto dourado,
A mãe árvore cresce na praia;
É lá que eu devo encontrar minha raiz.

Há uma ilha no mar,
Onde as águas fluem e o alimento dá a vida,
Onde não há inimigo, onde o amor é livre.
Procuro um lugar onde não aja contenda.

Eu olho a estrela para me guiar para casa,
Encontro o repouso da minha alma e meu espírito,
Viajei muito além das ondas,
Pois não há fim em minha busca.”
(poema de Catlín Mathews para a travessia da alma apud Rowena A. Seneween)[2]




Sugestões de leituras:

SENEWEEN, Rowena A. O que são os 30 dias druídicos In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=51>.


Referências:

Schleichuberti, João Eduardo. Elementos Místicos do Druidismo e sua interconexão e uso prático [palestra] In VI EBDRC. Circulação interna. Curitiba, 2015.

SENEWEEN, Rowena A. 2º Dia: Cosmologia In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?


_________________. 4º Dia: Três Reinos In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=55>.

_________________. 5º dia: Elementos In Templo de Avalon. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=56>.





[1] Particularmente eu articulo os reinos igualmente como Acima, ao Meio e Abaixo, seguindo a seguinte ordem: Céu acima, Terra ao meio, Mar abaixo. Minha justificativa é simples: uma árvore possuí seus galhos altivos no céu, seu tronco está na terra, e suas raízes profundas buscam água. Mas conheço e reconheço outras vertentes que, por exemplo, articulam Céu acima, Mar ao meio, Terra abaixo, usando duas justificativas: a primeira relacionada ao fato de que pisamos sobre a terra, por isso ela estaria abaixo de nós; o mar nos circunda, o que dá uma ideia de meio. A segunda justificativa que corrobora com essa visão são as articulações dos caldeirões: Coíre Sois, na cabeça, se articula com o Céu; Coíre Ermaí, no peito, se articula com o Mar; e Coíre Goíriath, no ventre, se articula com a Terra. Vejo profunda coerência nessa vertente. Mas eu particularmente, tendo a entender que a posição dos Reinos não interfira em sua atuação. O Mar, mesmo abaixo nos circunda. Referências mitológicas como a Terra Sob as Ondas (lar dos ancestrais) também me fazem pensar no Mar como abaixo. Por fim, se recriarmos a ideia cosmológicas dos Três Mundos estando nós habitando o intermediário, seria fácil presumir que também habitemos o Reino Intermediário. Mas essa é uma reflexão extensa e que creio ser insolúvel. Faço aqui uso das palavras de Bellouesus para mim no VI EBDRC: “se dá certo para você, então está certo”. Estude e escolha sua perspectiva, se ela for coerente e funcionar, viva-a.
[2] Retirado de Seneween, Rowena A. 4º dia: Três Reinos In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=55>.

sábado, 26 de março de 2016

O Sagrado Três

Link
A Triketa, representação da sacralidade do Três na cultura celta.


Por Ávillys d’Avalon, Mundi Tempus.

Três é o número sagrado...
Três vezes tudo deve ser reverenciado.

Há três Mundos no Universo:
Um mundo acima, um ao meio e um abaixo.
Na Terra Média toca o Oran Mor,
Que com sua música e vibração tudo criou, cria e conduz.
Há três Reinos na Terra Média:
Um Reino acima, um ao meio e um abaixo.
Acima fica o Céu,
lar dos animais que voam e planam,
onde vive Nwyfre, e lar dos Deuses.
Ao meio fica a Terra,
lar dos animais que andam e rastejam,
Onde vive Calas, lar dos homens e dos espíritos da natureza.
Abaixo fica o Mar, que nos ronda e circunda,
lar dos animais que nadam e mergulham,
onde vive Gwyar, lar dos ancestrais e das fadas.
No centro está a Árvore do Mundo,
O Freixo sagrado...
Com seus galhos altivos toca e sustenta o Céu
Seu tronco forte está na Terra
Suas raízes firmes alcançam o Mar.
A sua frente queima Awen, o fogo sagrado,
A inspiração dos artistas, a magia e o sagrado do mundo.

Três elementos existem:
Nwyfre é o sopro que traz inspiração.
Calas é a terra que traz sustentação.
Gwyar é o mar que traz a fluidez e a emoção.
Com Nwyfre se contata os Deuses.
Com Gwyar se viaja para as outras terras.
Com Calas se fixa e se vive em harmonia.

Três povos estão entre nós:
Os Deuses, nossos mestres soberanos,
Aqueles que governam o Mundo.
A Eles reverenciamos e buscamos sabedoria e auxílio.
Os ancestrais, nossos antepassados,
Aqueles que nos ensinam toda a tradição.
Deles colhemos o aprendizado e a experiência.
As fadas, nossos vizinhos honrados,
Aqueles que conhecem o mundo e conduzem nossos destinos.
Deles buscamos amizade e harmonia.
Conviver com os Três Povos é uma lei,
Dessa convivência depende o destino de nossa raça.

Três Caldeirões conduzem nossa poesia.
Ao ventre está Coire Goiriath, o Caldeirão do Aquecimento.
Ele nascem sempre para cima e cheio de Dán.
Dán é nossa saúde, nosso destino, nossos talentos e nossos dons.
Devemos mantê-lo sempre para cima e cheio.
Ao peito está Coire Ermaí, o Caldeirão do Movimento.
Ele nasce sempre de lado, quase vazio.
Devemos desvirá-lo e enchê-lo de Brí.
Brí é produzido por Dán.
Brí são nossas emoções, nossa energia mágica, nossa vitalidade e essência.
Quatro são as alegrias humanas que movimenta esse caldeirão:
Sexo, saúde, Composição bárdica e Inspiração.
Quatro tristezas também o fazem:
Anseio, Ciúme, Luto e Peregrinação.
E uma alegria divina: o êxtase.
Trabalhar cada uma delas é necessário,
vivenciar todas corretamente é o caminho apontado.
Na cabeça está Coire Sois, o Caldeirão da Sabedoria.
Ele nasce sempre para baixo e vazio.
Devemos desvirá-lo em enchê-lo de Bua.
Bua é produzido por Brí.
Bua é nossa sabedoria e nossa honra, nossa vitória, mérito e dignidade.
Alinhar os caldeirões é missão de vida.

E tudo está emaranhado, está atado.
Na Terra Média tudo está conectado.
O Reino do Céu pertence a Nwyfre,
Lar dos Deuses, contato de Coire Sois.
O Reino da Terra pertence a Calas,
Lar das fadas, contato de Coire Goiriath.
O Reino do Mar pertence a Gwyar,
Lar dos ancestrais, contato de Coire Ermaí.
Perceber a relação necessário se faz,
Então três vezes três articulado está.



Sugestões de leituras:

SENEWEEN, Rowena A. O que são os 30 dias druídicos In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=51>.



Referências:

Endovelicon. A Jornada de Máel Dúin IN Ramo de Carvalho. Disponível em: <http://www.ramodecarvalho.com.br/mitologia/mitologia-gaelica/a-jornada-de-mael-duin/>, acessado em 18 de agosto de 2015.

Endovelicon. Usando as Emoções para mover os Caldeirões [palestra] IN VI EBDRC. Circulação interna. Curitiba, 2015

Schleichuberti, João Eduardo. Elementos Místicos do Druidismo e sua interconexão e uso prático [palestra] IN VI EBDRC. Circulação interna. Curitiba, 2015.

SENEWEEN, Rowena A. 2º Dia: Cosmologia In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=53>.

_________________. 3º Dia: Terra e Natureza In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=54>.

_________________. 4º Dia: Três Reinos In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=55>.



_________________. 5º dia: Elementos In Templo de Avalon. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=56>.

_________________. 8º dia: Divindades e Crenças In Templo de Avalon. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=59>

_________________. 9º dia: Ancestrais In Templo de Avalon. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=60> 

_________________. 10º dia: Espíritos da Natureza In Templo de Avalon. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=61>

Introdução à Mística Celta

Link.
O Carvalho, o Rei das Árvores... A árvore mais antiga e, portanto, a mais sábia. Aquela que conhece muitas Eras.

A Mística Celta é linda e profunda. É muito simples a olhos desatentos, mas muito profunda e tocante para quem lhe dá a devida atenção.

Ela era ensinada pelos antigos Druidas (sacerdotes celtas) de maneira oral e seu aprendizado levava a um comportamento religioso, ético e moral muito importante na sociedade celta. Ela pode ser vista sendo aplicada nos mitos, lendas e histórias desse povo.


O que tentaremos aqui é trazer essa mística resumida e simplificada para o aprendizado comum, fazendo o leitor pesquisar mais e buscar se aprofundar nesse tema.

Nossa dica é que, para ler e estudar essa mística, buque primeiro harmonizar seu espírito e seu cotidiano. Se acalme, relaxe, abstraia sua mente do mundano e se permita acessar seu coração e intuição. Após cada leitura, sente por um tempo, reflita e pense... Ou melhor, deixe os pensamentos virem e te conduzirem ainda mais profundamente em cada ponto estudado. Não tenha pressa. Com tempo, dia após dia, a compreensão dessa mística vai vindo mais sólida e cada vez mais intensa, até que você simplesmente se encantará e entenderá a profundidade do tema e sua aplicação, com a certeza de que jamais compreenderá de fato toda a sua extensão (esse será sempre um tema de estudo mais do que atual, não importe a quanto tempo você o estude).


A princípio, dividiremos o tema em partes, sendo elas (links inclusos para as partes já publicadas):





Um bom exercício para se fazer antes do estudo da Mística Celta é o exercício de Ancoramento e Centramento.

Bom Estudo!